Durante décadas, os cientistas têm procurado replicar a capacidade
do cérebro de detetar uma voz humana no meio de uma multidão ruidosa e
obtiveram agora a primeira evidência direta de uma tecnologia auditiva
controlada pelo cérebro humano.

Esta descoberta, feita pelo Instituto Zuckerman da Universidade de
Columbia, nos Estados Unidos, representa um grande avanço no desenvolvimento de
um dispositivo de amplificação auditiva que pode, entre outros desafios,
superar os problemas dos aparelhos auditivos convencionais em ambientes
ruidosos.

Os detalhes foram publicados na revista Nature
Neuroscience, noticiou a agência Efe.

"Desenvolvemos um sistema que atua como uma extensão neural
do utilizador, aproveitando a capacidade natural do cérebro de filtrar todos os
sons num ambiente complexo para isolar dinamicamente a conversa específica que
deseja ouvir", frisou o autor principal.

O avanço "permite-nos pensar para além dos aparelhos
auditivos tradicionais, que simplesmente amplificam o som, e vislumbrar um
futuro onde a tecnologia possa restaurar a audição sofisticada e seletiva do
cérebro humano", salientou Nima Mesgarani, investigador principal do
Instituto Zuckerman.

Para realizar o teste, os autores trabalharam com doentes com
epilepsia de hospitais de Nova Iorque e da Universidade da Califórnia, em São
Francisco.

Os doentes tiveram elétrodos implantados cirurgicamente para
identificar a origem das suas crises.

A equipa usou esta interface para realizar uma experiência com os
voluntários, que tinham de ouvir duas conversas a acontecer simultaneamente.

O sistema detetou automaticamente qual a conversa que o paciente
estava a ouvir e ajustou o volume em tempo real, aumentando o volume dessa
conversa enquanto silenciava a outra.

Para os voluntários, a experiência foi "literalmente
incrível", uma experiência de "ficção científica".

Os aparelhos auditivos modernos amplificam a fala, ao mesmo tempo
que suprimem certos tipos de ruído de fundo, como o tráfego.

Mas não conseguem isolar e amplificar vozes específicas de
interesse. Em vez disso, amplificam indiscriminadamente todas as vozes que
chegam ao microfone, dificultando a concentração das pessoas num orador
específico no meio da multidão.

Uma possível solução seria conceber um dispositivo capaz de imitar
a forma natural do cérebro identificar e focar a voz de uma única pessoa no
meio do ruído, conhecido como efeito cocktail.

"A principal questão em aberto era se a tecnologia de audição
controlada pelo cérebro poderia ir além dos avanços incrementais em direção a
um protótipo que pudesse ajudar alguém a ouvir melhor em tempo real",
explicou Vishal Choudhari, primeiro autor do artigo e estudante de doutoramento
no laboratório de Mesgarani.

"Pela primeira vez, demonstrámos que um sistema deste tipo,
que lê sinais cerebrais para melhorar seletivamente as conversas, pode
proporcionar um benefício claro em tempo real. Isto leva a audição controlada
pelo cérebro desde a teoria até à aplicação prática", acrescentou.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, mais de 430 milhões
de pessoas no mundo vivem com perda auditiva incapacitante, muitas das quais
enfrentam maiores dificuldades em ambientes sociais ruidosos.

Além disso, a perda auditiva não tratada é um fator de risco para
a demência, depressão e isolamento social.

O objetivo final dos investigadores é
desenvolver sistemas portáteis e não invasivos, possivelmente integrados em
aparelhos auditivos supra-auriculares ou dispositivos intra-auriculares, que
consigam ler as ondas cerebrais através da pele ou utilizando sensores menos
invasivos.