Sem citar nominalmente o senador Flávio Bolsonaro, o
Presidente brasileiro, Lula da Silva, criticou o adversário político por pedir
dinheiro ao banqueiro preso Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre Jair
Bolsonaro.
"Como a verdade não falha, nós nunca fomos atrás da 'Lei
Daniel Vorcaro' para financiar nenhum artista brasileiro", ironizou.
"Quem imaginava que aquele menino, que parecia ser a pessoa
mais santa da família Bolsonaro, estaria pegando milhões de dólares para fazer
o filme do pai?", indagou em referência ao pré-candidato e concorrente nas
eleições de outubro.
Ao falar "Lei Daniel Vorcaro", Lula discursou em defesa
da Lei Rouanet, que autoriza empresas e pessoas a financiarem iniciativas
culturais, como filmes e 'shows', a partir de dedução do Imposto de
Renda.
A Lei Rouanet é frequentemente atacada por Bolsonaristas que
acusam o Governo brasileiro de validar os financiamentos apenas de projetos
supostamente ligados a ideologias de esquerda e de doutrinação, e que muitos
artistas apenas vivem desses recursos.
Na última semana, o portal The Intercept Brasil mostrou que o
então banqueiro Daniel Vorcaro ajudou a financiar o filme "Dark
Horse", cinebiografia do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
Áudios do senador Flávio Bolsonaro e pré-candidato à Presidência
do Brasil nas eleições mostram que ele pediu e cobrou Vorcaro pelo pagamento
das parcelas, e o banqueiro chegou a pagar 64 milhões de reais (10,9 milhões de
euros).
Ainda na crítica a Flávio Bolsonaro hoje, Lula declarou que
"ainda vai surgir muita coisa" sobre o caso, mas não detalhou o que
seria.
Na semana passada, Flávio Bolsonaro atacou a Lei Rounet e negou,
numa primeira versão, ter pedido financiamento a Daniel Vorcaro, e disse que o
filme era bancado por "recursos privados".
Atualmente, Daniel Vorcaro segue preso em Brasília acusado de
cometer fraudes contra o sistema financeiro e por crimes de corrupção.
A revelação das conversas entre o político e o banqueiro tem
gerado uma crise na pré-campanha de Flávio Bolsonaro e dentro do seu partido, o
PL, uma vez que os seus correligionários disseram não saber da proximidade
entre os dois.
O parlamentar, inclusive, defendia que o Congresso Nacional
brasileiro instaurasse uma investigação sobre as fraudes cometidas pelo Banco
Master.
Na quarta-feira, o senador trocou o seu marqueteiro de campanha,
fez reunião com parlamentares do PL para explicar o seu envolvimento com
Vorcaro e declarou que em 30 dias irá prestar contas sobre os gastos do
filme.
As datas das mensagens mostram que à época, já era público que o
ex-banqueiro era investigado por crimes financeiros, tendo usado, por exemplo,
recursos de fundos de previdências aplicados no banco, para subornar agentes
políticos e comprar influência em Brasília.
Ainda na quarta-feira, após novas revelações da imprensa
brasileira, Flávio Bolsonaro admitiu reunião com Vorcaro em novembro passado,
quando banqueiro estava com tornozeleira eletrónica.
Segundo disse, eles se encontraram "para botar um ponto final
nessa história, e dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave
como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo".
Atualmente, a Polícia Federal brasileira investiga se parte dos
recursos milionários do filme foram usados para custear o deputado federal
cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Os dois irmãos, por sua vez, negam, mas reconheceram que Eduardo
Bolsonaro tinha poder para administrar o dinheiro da empresa produtora do
filme.
A imprensa brasileira tem chamado atenção para o fato do orçamento
de "Dark Horse" superar os gastos de filmes que ganharam o Óscar,
inclusive de produções nacionais que saíram vitoriosas no Globo de Ouro
nos últimos dois anos.
