A justiça espanhola ordenou hoje o bloqueio de contas bancárias do
ex-primeiro-ministo José Luis Rodriguez Zapatero, que está a ser investigado
por tráfico de influências, disseram hoje fontes judiciais.
O bloqueio de contas visa um valor de cerca de 490.780 mil euros,
relacionados com transferências de uma empresa investigada neste processo,
segundo as mesmas fontes, citadas por vários meios de comunicação social.
A justiça espanhola revelou na terça-feira, num comunicado, que
Zapatero, primeiro-ministro entre 2004 e 2011 e antigo líder do Partido
Socialista Espanhol (PSOE), está ser investigado "por delitos de tráfico
de influências e outros conexos" e que será ouvido por um juiz no dia 02
de junho.
A Audiência Nacional de Espanha disse ainda que em causa está um
processo judicial "aberto para investigar o resgate da companhia aérea
Plus Ultra", em 2021.
Segundo o sumário do processo judicial, Zapatero é suspeito de
liderar "uma estrutura estável e hierarquizada de tráfico de
influências" com o fim de obter "benefícios económicos" através
de "influências em instâncias públicas em favor de terceiros,
principalmente, a Plus Ultra".
A investigação suspeita ainda da utilização de empresas e
documentação simulada "para exercer influências ilícitas" e ocultar a
origem e o destino de verbas, incluindo uma empresa de que são administradoras
e sócias as filhas de Zapatero.
A justiça suspeita que Zapatero e as duas filhas receberam 1,95
milhões de euros em comissões, de forma irregular, neste
caso.
José Luis Rodríguez Zapatero, de 65 anos, garantiu na terça-feira
inocência e prometeu total colaboração com a justiça.
"Quero reafirmar que toda a minha atividade pública e privada
sempre se desenvolveu com absoluto respeito pela legalidade", disse
Zapatero, num vídeo enviado aos meios de comunicação social.
Zapatero afirmou "com toda a contundência" que nunca fez
"qualquer gestão" junto de um governo ou entidade pública, em Espanha
ou noutro país, relacionado com o resgate da companhia aérea Plus Ultra.
A Plus Ultra, considerada de pequena dimensão, beneficiou em 2021
de um resgate financeiro de 53 milhões de euros, concedidos na modalidade de
empréstimo pelo governo espanhol, liderado pelo socialista Pedro Sánchez, que
na altura criou um fundo de dez mil milhões de euros para resgatar empresas
consideradas estratégicas que estavam com dificuldades por causa da covid-19.
O Governo espanhol manifestou logo na terça-feira tranquilidade e
"respeito pela justiça", mas sem esquecer "o princípio
fundamental da presunção de inocência", na investigação ao antigo
primeiro-ministro e também em relação ao resgate da Plus Ultra.
A ministra porta-voz do Governo, Elma Saiz, realçou que os vários
empréstimos concedidos a companhias aéreas durante a pandemia foram autorizados
pela Comissão Europeia e validados pelo Tribunal de Contas espanhol e pelo
Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE).
Foram processos "absolutamente transparentes" e
similares aos adotados por outros países europeus, acrescentou.
Pedro Sánchez manifestou na quarta-feira, num debate no parlamento
espanhol, "total colaboração com a justiça, total respeito pela presunção
de inocência e total apoio ao presidente [do Governo] Zapatero".
Sánchez respondia ao Partido Popular (PP, direita), a maior força
da oposição em Espanha, que considera que a investigação a Zapatero é
"extremmente grave" e o atual primeiro-ministro deveria demitir-se ou
ser derrubado com uma moção de censura, pelo que está a apelar (para já, sem
êxito) aos partidos da geringonça que viabilizaram o Governo para lhe retirarem
o apoio.
O líder do PP, Alberto Núnez Feijóo, considerou na quarta-feira
que Zapatero só podia ter cometido os alegados crimes por que está ser
investigado em colaboração com o conselho de ministros, onde foi aprovado o o
resgate da Plus Ultra.
Zapatero foi um dos grandes apoiantes de Sánchez nas últimas
eleições espanholas, em julho de 2023, e chegou a sr classificado pela imprensa
como o "grande ativo eleitoral" atual do PSOE e um dos vencedores das
legislativas daquele ano.
A investigação judicial a Zapatero soma-se a outras que envolvem
outras pessoas próximas ou que foram próximas de Pedro Sánchez, como um antigo
ministro, ex-dirigentes do PSOE ou o irmão e a mulher do primeiro-ministro,
acusados ou investigados por corrupção ou tráfico de influências.
Numa mensagem aos dirigentes do PSOE na terça-feira, Sánchez
reconheceu que estes são "momentos duros" para o partido, mas apelou
à defesa de Zapatero.
