Os discursos de ódio e a crescente hostilidade em torno da imigração marcaram o arranque
da Conferência ‘Multiculturalidade: A Diferença que nos Une’, que decorre esta
manhã no auditório da reitoria da Universidade da Madeira, no Colégio dos
Jesuítas, no Funchal. À margem da iniciativa, o director regional das
Comunidades e Cooperação Externa, Sancho Gomes, alertou para o crescimento de
discursos populistas e xenófobos, considerando que estes “não são naturais na
sociedade madeirense”.
A conferência integrou as comemorações do Dia Mundial da
Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento e tem como principal
objectivo promover uma reflexão sobre os fluxos migratórios, a integração e o
papel da multiculturalidade na sociedade actual. Segundo Sancho Gomes, a
iniciativa surge numa altura em que “os discursos de ódio continuam a
proliferar no espaço mediático e político”.
“Há partidos populistas que fazem das migrações os seus
principais adversários, estimulando sentimentos que até não são naturais na
nossa sociedade”, afirmou, defendendo que o debate público deve assentar “em
factos concretos e não em mitos ou mentiras”.
O governante regional reforçou a ideia de que os imigrantes
representam “uma riqueza” para a Madeira, tanto do ponto de vista económico
como social e cultural. “Contribuem para o nosso desenvolvimento económico,
cultural e social. Não nos retiram nada, bem pelo contrário, vêm acrescentar
valor e são bem-vindos”, sublinhou.
Sancho Gomes revelou ainda que a Região acolhe actualmente
cidadãos de 133 nacionalidades diferentes, sendo a comunidade venezuelana a
mais representativa entre os estrangeiros residentes, com cerca de 2.500
cidadãos. Seguem-se comunidades oriundas do Reino Unido e do Brasil.
Apesar do aumento recente da imigração proveniente do sul da
Ásia, nomeadamente da Índia, Paquistão, Bangladesh e Nepal, o responsável
desvalorizou a ideia de uma predominância dessas comunidades na Região. “O
Nepal aparece apenas em 12.º lugar entre as comunidades estrangeiras mais
representativas na Madeira”, exemplificou.
Numa crítica indirecta a mensagens recentemente divulgadas
na esfera pública regional, Sancho Gomes lamentou a existência de cartazes com
discursos anti-imigração. “Infelizmente já temos [cartazes] isso na Madeira para vergonha de todos nós”, afirmou, referindo-se a mensagens dirigidas contra
cidadãos do Bangladesh. "De facto não é [o Bangladesh], até porque os cidadãos do Bangladesh, que são muito bem-vindos porque vêm também trabalhar, representam uma minoria infíma entre as 133 nacionalidades que nós temos aqui a residir na Região Autónoma da Madeira", acrescenta.
A iniciativa promovida pela Direcção Regional das
Comunidades e Cooperação Externa incluiu ainda uma componente académica e de
reflexão, contando com a participação da professora catedrática e consultora da
ONU, Ana Rita Gil, especialista em migrações e direitos humanos.

