A
crescente longevidade da população portuguesa não está a ser acompanhada por um
planeamento individual estruturado para assegurar a qualidade de vida nos anos
adicionais. Na área do investimento financeiro, seis em cada dez portugueses
poupam atualmente, mas sobretudo a pensar em imprevistos de curto prazo e não
no complemento dos seus rendimentos na reforma, revela um estudo da BPI Vida e
Pensões.
Intitulado
“Pensar o Futuro: como os Portugueses investem no seu futuro em saúde, relações
sociais, espaços e ambientes e finanças”, o estudo é lançado hoje, dia 20 de
maio, no BPI All in One, em Lisboa.
Com a
coordenação científica da Prof.ª Maria João Valente Rosa, o estudo procura
compreender como os portugueses encaram o seu futuro e a possibilidade de
investir no seu bem-estar. Participam também o Prof. José Soares, a Prof. Rita
Cunha e o Prof. João Bernarda, além da própria BPI Vida e Pensões. Os
resultados revelam uma visão geralmente positiva sobre o futuro, mas apelam a
uma reflexão sobre a necessidade de um "investimento" mais
abrangente, que inclua não só a dimensão financeira, mas também a saúde, as relações
sociais e os espaços de vida. A fragilidade do sistema de pensões e a tendência
de a primeira pensão ser significativamente inferior ao último salário reforçam
a urgência de uma preparação financeira atempada.
Isabel
Castelo Branco, CEO da BPI Vida e Pensões, explica: “Estamos a viver um momento
único na história, em que a expectativa de vida aumentou significativamente,
permitindo-nos gozar de tempo de qualidade. No entanto, como sociedade, não
estamos mentalizados para preparar esse tempo, porque a sociedade de vidas
longas é um fenómeno recente. Por isso, é importante tomar consciência que há
ações que estão no nosso controlo que nos podem ajudar a preparar esse futuro
mais longo com maior qualidade de vida”.
As pensões de reforma tenderão a ser significativamente abaixo do último salário, sobretudo para pessoas que tiveram progressões relevantes de carreira.
Investimento
financeiro no futuro
Os
inquiridos estimam viver, em média, até aos 84,2 anos, um horizonte muito
próximo da esperança de vida real, mas antecipam uma deterioração da saúde por
volta dos 66,5 anos, o que prolonga o período de vida dependente de pensões e
poupanças acumuladas.
Apesar
deste enquadramento, apenas 50,6% dos inquiridos admitem pensar regularmente no
futuro a longo prazo, enquanto 67,3% consideram útil fazê-lo, evidenciando um
desfasamento entre a perceção da importância do planeamento e a sua
concretização.
O
estudo identifica ainda três perfis de comportamento dos portugueses face ao
investimento no seu bem-estar: 22,2% dos inquiridos assumem uma abordagem
estruturada de investimento, enquanto 17,6% privilegiam o presente e 60,2%
consideram que o melhor é conciliar as duas opções. 63,3% dos portugueses
afirmam poupar atualmente, mas essa poupança destina-se sobretudo a fazer face
a imprevistos e não a complementar o rendimento na reforma.
A
preparação específica para a reforma permanece reduzida, com apenas 22,1% dos
inquiridos a referirem possuir um Plano de Poupança Reforma (PPR), enquanto a
poupança continua concentrada em instrumentos de baixo risco, como depósitos e
produtos de capital garantido, com menor potencial de valorização ao longo do
tempo.
Segundo
os inquiridos, a falta de capacidade financeira surge como o principal
obstáculo ao investimento no futuro. Os participantes no estudo atribuem
elevada importância ao investimento financeiro, cerca de 7,7 numa escala de 0 a
10, mas avaliam a sua capacidade para o concretizar em níveis inferiores, que
variam entre os 4,2 (produtos com maior risco) e os 6,1 (esquemas de poupança
regular).
No
entanto, o estudo evidencia o efeito multiplicador da capitalização na
acumulação de património, mesmo com valores de poupança baixos. Segundo
cálculos da BPI Vida e Pensões, uma poupança mensal de apenas 30 euros (360
euros anuais) investida em instrumentos com retornos médios de 5% (com mais
risco) durante 40 anos, pode gerar um valor final 2,5 vezes superior face a
instrumentos de baixo risco com um retorno médio de 1%. São 46.149 euros no
primeiro caso, face a apenas 18.140 euros no segundo.
O
estudo enquadra estes comportamentos num contexto de pressão crescente sobre o
sistema público de pensões. As projeções da Comissão Europeia apontam para um
aumento do peso no PIB das despesas com pensões até um máximo de 15% do PIB em
2046, sendo expectável que a primeira pensão seja inferior ao último salário,
sobretudo em carreiras contributivas mais recentes.
Saúde
e finanças lideram as prioridades de investimento, mas enfrentam barreiras: dos
quatro eixos de investimento analisados (Saúde, Finanças, Relações Sociais e
Espaços e ambientes onde se vive), a Saúde (média de 8,45 numa escala de 0 a
10) e as Finanças (média de 7,71) são consideradas as áreas mais importantes e
urgentes para o futuro. No entanto, o investimento financeiro é percebido como
o mais difícil de concretizar, muitas vezes devido a rendimentos insuficientes.
Seis em cada dez
portugueses fazem poupanças sobretudo centradas no curto-prazo e não para
complementar o rendimento na reforma, revela estudo da BPI Vida e Pensões.
Investimento
pessoal na saúde é a dimensão mais valorizada
O
estudo revela que a saúde é a dimensão mais valorizada pelos portugueses, com
uma classificação média de 8,45 em 10, sendo considerada a base para o
bem-estar futuro e a condição necessária para que os restantes investimentos
façam sentido=. Mais de metade dos portugueses já adotou comportamentos de
investimento em saúde, como alimentação e vida saudável (58,1%) e consultas
médicas regulares (56%), evidenciando uma maior proatividade nesta área face às
restantes dimensões.
O
investimento nos espaços e ambientes onde se vive é menos valorizado (7,35) e é
frequentemente adiado. As intervenções estruturais são residuais. Segundo o
estudo, apenas 7,7% dos inquiridos referem adaptações nas casas para limitações
futuras, o que aponta para uma abordagem reativa e não preventiva.
As
relações sociais são as menos valorizadas, com uma avaliação média de 6,99 em
10, apesar de 81,4% dos inquiridos manterem e reforçarem laços com amigos
existentes, refletindo uma prática mais espontânea do que planeada.
Portugueses estão conscientes da sua maior longevidade e da necessidade de investir na saúde pessoal a longo prazo, mas valorizam menos outros fatores importantes para o bem-estar como as relações sociais ou o investimento nos espaços onde vivem.
Estudo
analisa como os portugueses investem no seu bem-estar futuro
Contando
com a coordenação técnica e científica da Prof.ª Maria João Valente Rosa, o
estudo procurou perceber como os portugueses encaram a perspetiva de uma vida
longeva e o que estão efetivamente a fazer, ou não, para preparar esse futuro.
A
análise centra‑se em quatro grandes dimensões do bem‑estar, e contou com um
olhar focado em cada área, proporcionado por professores universitários
especialistas na matéria: Saúde
(Prof. José Soares); Relações
Sociais (Prof.ª Rita Cunha); Espaços
e Ambientes (Prof. João Bernarda); e Finanças,
esta última desenvolvida pela BPI Vida e Pensões, tendo em conta os desafios
que se colocam à evolução das pensões de reforma.
A
metodologia do estudo envolveu uma abordagem mista: um estudo qualitativo com focus
groups em Lisboa e Porto (54 participantes, divididos por faixas etárias de
40-55 e 56-70 anos), realizado em março de 2025, e um estudo quantitativo com
802 entrevistas a residentes do Portugal Continental (25-70 anos), realizado em
maio de 2025. O objetivo foi quantificar perceções e expectativas sobre o
futuro e a disposição para investir na sua preparação. Os dois eixos
principais, que captam 85,5% da variância total da informação, demonstram que a
disponibilidade financeira e a postura temporal são determinantes na forma como
o futuro é encarado e preparado.
Pensar o futuro nas várias dimensões do bem-estar está associado a um maior controlo e autonomia na segunda metade da vida.
