
1. Exmo. Sr. Deputado Francisco Gomes,
Li com atenção o seu escrito do sábado passado, nas colunas deste Diário. Começo por lhe deixar bem claro que só odeio coração e bofe. E já me custa bastante gerir essa relação complicada com as miudezas. Não me dou ao luxo de odiar mais nada, até porque o ódio exige energia, tempo e uma espécie de dedicação emocional que prefiro reservar para coisas úteis, como dormir ou tentar perceber porque razão há adultos funcionais que lêem textos como o seu sem desatar a rir às gargalhadas no meio do café. O que sinto pelo CHEGA não é ódio. É desprezo. Um desprezo frio, clínico, quase antropológico. Como quem observa um vendedor de banha da cobra, convencido de que descobriu a pólvora porque grita mais alto do que os outros.
Reconheço que o seu texto é fascinante, não pelo conteúdo, mas pela pobreza intelectual embrulhada em solenidade épica. Creia, Exmo. Sr. Deputado Francisco Gomes, que parece escrito por alguém que passou demasiado tempo entre vídeos motivacionais patrióticos no Facebook e comentários de tasca sobre “a decadência do Ocidente”. A ideia central resume-se a isto: toda a gente que discorda do CHEGA odeia Portugal, odeia a família, odeia a autoridade, odeia as fardas, odeia os velhinhos, odeia bebés e, provavelmente, odeia cães de raça pequena. É a política transformada numa telenovela moral para gente que precisa desesperadamente de se sentir heroína sem sair do sofá.