Na Praça do Peixe, no Mercado dos Lavradores, perante algumas centenas de
participantes reunidos para assinalar, num almoço, o Dia do Trabalhador,
Leonilde Cassiano, dirigente da UGT-Madeira, deixou um discurso marcado pelo
tom crítico em relação às políticas laborais dos governos da República e
Regional e pelo apelo à mobilização dos trabalhadores.
Assinalando os 52 anos sobre o 25 de Abril e o
meio século da Constituição da República Portuguesa e das primeiras eleições
livres, a sindicalista sublinhou que estas datas representam mais do que
memória histórica, constituindo antes um “compromisso com a dignidade do
trabalho, com a justiça social e com um país que não abandona quem vive do seu
salário”.
Num discurso de forte carga política, Leonilde
Cassiano considerou que o actual contexto coloca em risco direitos que muitos
julgavam consolidados, afirmando que este 1.º de Maio é “não apenas um dia de
celebração, mas sobretudo um dia de alerta e de mobilização”. Criticou
duramente a revisão da legislação laboral proposta pelo Governo de Montenegro,
rejeitando a ideia de que esta seja inevitável ou benéfica. Pelo contrário,
defendeu que não existe evidência de que venha a melhorar salários ou combater
a precariedade, alertando antes para o agravamento das desigualdades entre
trabalhadores e entidades patronais.
Entre as principais críticas, destacou a
fragilização da contratação colectiva, os obstáculos ao direito à greve e o
enfraquecimento da acção sindical nos locais de trabalho. Na sua leitura,
trata-se de “uma estratégia de desvalorização silenciosa dos direitos
laborais”, que beneficia sobretudo as empresas, ao reduzir custos e facilitar
despedimentos.
A dirigente sindical questionou ainda a
transparência do processo, sustentando que estas medidas não foram claramente
apresentadas aos eleitores em período eleitoral, o que, no seu entender,
fragiliza a confiança democrática.
No plano económico, reconheceu os indicadores
positivos apresentados pelos referidos governos, mas considerou que estes não
justificam a urgência da revisão laboral, sobretudo tendo em conta as
dificuldades específicas da Região Autónoma da Madeira, como os baixos
salários, a inflação mais elevada e o risco acrescido de pobreza.
Leonilde Cassiano elencou um conjunto de
reivindicações dos trabalhadores, desde salários dignos e estabilidade no
emprego até ao acesso à habitação e a serviços públicos de qualidade,
denunciando aquilo que classificou como um “regresso a modelos de trabalho do
passado, marcados pela insegurança e pela exploração”.

No plano regional, apontou a necessidade de
reforço da autonomia em matérias laborais, criticando a falta de avanços na
negociação colectiva regional, no subsídio de insularidade para o sector
privado e na criação de mecanismos de arbitragem laboral.
A intervenção terminou com um apelo à união e
à sindicalização, especialmente dirigido aos jovens trabalhadores, sublinhando
que “sem organização colectiva não há justiça nem progresso”. Num tom
mobilizador, defendeu que “a dignidade do trabalho não é negociável” e que os
trabalhadores devem manter-se unidos na defesa dos seus direitos.

