Os últimos poemas de Nuno Júdice, que morreu em 2024, foram reunidos no livro "Primeiro Poema" que chega hoje às livrarias, um volume organizado por Ricardo Marques.
Numa nota enviada à agência Lusa, Ricardo Marques conta a história deste livro que começou "numa tarde no início de 2024, num breve período entre estadias no hospital", quando Nuno Júdice mostrou o "Primeiro Poema", incluído neste volume.
"Depois de o ler, perguntei se era para um livro novo, resposta com uma anuência simples com a cabeça, tantas vezes seu apanágio. Que título vai dar ao livro, perguntei eu, de seguida. A resposta foi, como sempre, telegráfica e objetiva: 'Primeiro Poema'", escreve o também poeta e tradutor.
Marques acrescentou: "Creio que pensei na altura para comigo que, a ser o seu último livro, pensamento terrífico, mas objetivo, dada a gravidade e imprevisibilidade da doença que se apossara do seu corpo, aquele seria uma saída de cena em grande".
Após a morte de Júdice, a sua mulher, Manuela Júdice, pediu ajuda a Ricardo Marques para "dar forma ao livro que o Nuno começara a escrever e que para sempre seria 'incompleto'".
Sobre o título escolhido, afirma Ricardo Marques: "Lembrei-me desse dia com o Nuno, da revelação de um título possível para um livro, e disse-o à Manuela. Para minha estupefação e pelo que percebemos, essa informação apenas a mim me fora dada, e ainda hoje procuro entender porquê. Nunca saberei. A resposta mais plausível talvez seja porque simplesmente lhe perguntei por um título, depois de ler 'um primeiro poema'".
Nuno Júdice que morreu a 17 de março de 2024, em Lisboa, aos 74 anos, dizia que o mais relevante na sua poesia é a imagem, a possibilidade de ver e dar a ver, "o que fica nas palavras daquilo que se viveu".
Para Nuno Júdice, "escrever o poema é aceder a um tempo primordial", defendeu o poeta e ensaísta António Carlos Cortez, numa análise à obra do escritor publicada no Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), em 09 de março de 2022, quando se assinalavam os 50 anos sobre a publicação do primeiro livro do autor de "Meditação sobre Ruínas".
"Talvez nenhum outro poeta do nosso tempo tenha, como Nuno Júdice, assumido de forma tão radical o fascínio de esculpir, em formas fixas ou livres, os mitos, as paixões e as contradições de uma Europa e de um mundo que, sob as ruínas, o poeta reedifica numa subversão total", defendeu António Carlos Cortez no mesmo texto.
