O declínio da memória pode começar no sistema digestivo, segundo
uma experiência com ratos, na qual os investigadores verificaram que a
inflamação gastrointestinal e as alterações que esta acarreta são um fator
direto no défice cognitivo.

A revista Nature publicou em meados de Março um estudo, conduzido por
uma equipa internacional de investigadores de centros norte-americanos e
europeus, que pode explicar parcialmente porque é que algumas pessoas da mesma
idade apresentam um maior declínio da memória do que outras.

A descoberta identifica uma via de três etapas para a perda de
memória. A primeira alteração inicia-se com o envelhecimento gastrointestinal e
as subsequentes alterações microbianas e metabólicas.

As células mieloides no intestino detetam estas alterações, e a
sua resposta inflamatória prejudica a ligação entre o intestino e o cérebro
através do nervo vago.

A boa notícia é que os investigadores descobriram em ratos que a
restauração da atividade do nervo vago pode também restaurar a função da
memória de um animal mais velho para o nível de um animal mais jovem, abrindo
possibilidades promissoras para o desenvolvimento de tratamentos.

A estimulação do nervo vago em humanos já está aprovada em muitos
países para tratar os sintomas de doenças como a epilepsia.

"A nossa esperança é que, em última análise, estas
descobertas possam ser traduzidas para a prática clínica para combater o
declínio cognitivo relacionado com a idade nas pessoas", destacou um dos
autores, Christoph Thaiss, do Arc Research Institute, na Califórnia.

Para testar a sua teoria de que a microbiota intestinal influencia
o envelhecimento cerebral, os investigadores colocaram ratinhos jovens (2
meses) com ratinhos idosos (18 meses).

Ao viverem (e defecarem) juntos, os ratinhos jovens foram expostos
à microbiota intestinal dos ratinhos idosos, e vice-versa.

Após um mês juntos, os investigadores examinaram a composição dos
microbiomas dos animais jovens e idosos e descobriram que a partilha do espaço
fez com que os microbiomas dos ratinhos mais jovens se tornassem mais
semelhantes aos dos animais mais velhos.

Ao comparar a capacidade dos ratos para reconhecer um objeto novo
ou encontrar a saída de um labirinto, os ratos jovens com microbiomas
envelhecidos apresentaram um desempenho inferior nestes testes, assim como os
seus pares mais velhos.

No entanto, a restauração do microbioma com antibióticos reverteu
este efeito, permitindo aos ratos recuperar níveis de função cognitiva
semelhantes aos da juventude.

Enquanto isso, os ratos livres de germes apresentaram um declínio
cognitivo mais lento com a idade em comparação com os ratos normais com
microbiomas típicos do envelhecimento, o que corrobora a existência de um
componente do microbioma envelhecido que impulsiona o processo de perda de
memória.

Os autores acreditam que este componente é a bactéria
Parabacteroides goldsteinii. A sua produção aumenta com a idade, criando
inflamação que prejudica a função do nervo vago e contribui para o declínio
cognitivo.

Quando os intestinos de ratos jovens foram colonizados com esta
espécie bacteriana, os ratos perderam a capacidade de reconhecer objetos e de
escapar dos labirintos.

No entanto, quando os ratos mais velhos foram tratados com uma
molécula que ativa o nervo vago, o seu desempenho cognitivo foi indistinguível
do dos ratos mais jovens.