A primavera começou há dois dias. Já devia cheirar a festa por toda a ilha; já devíamos ressudar alegria e otimismo por todos os poros. Mas não é assim. Teimamos em andar cabisbaixos e com ar de quem não vê na chegada da primavera o renascer da esperança.

Os tempos vão, de facto, difíceis e não é tanto por este inverno que parece eternizar-se, arrefecendo-nos a alma e tirando-nos a energia; mas antes pelo mundo que temos, um mundo em que os mísseis e os drones que caem no Médio Oriente ameaçam estoirar dentro das nossas cabeças e rebentar-nos as entranhas. Temos saudades do tempo em que vivíamos como se não houvesse guerras. Na verdade, existiam, mas pareciam-nos muito distantes. Hoje, ainda que a milhares de quilómetros, abrem em nós crateras profundas que dificultam o nosso viver.