O investigador principal Javier Hernández Borges apresentou nesta
segunda-feira, no Colégio dos Jesuítas da Universidade da Madeira, o novo
projecto Implamac Capitalização, financiado pelo programa Interreg MAC, que
pretende reforçar e alargar a monitorização de microplásticos em toda a
Macaronésia.
O projecto, com duração de dois anos e início em Outubro
passado, surge na sequência de um trabalho anterior desenvolvido entre 2019 e
2023, que permitiu criar a maior série temporal de monitorização de microplásticos
na região macaronésica, e uma das mais extensas a nível mundial. Nesse período,
foram analisadas 46 praias dos vários arquipélagos, através de uma metodologia
comum baseada na recolha de amostras na linha de máxima preia-mar, peneiração
da areia e posterior classificação laboratorial dos resíduos segundo forma,
tamanho, cor e composição.
Os resultados mostram que a Madeira e o Porto Santo
apresentam das mais baixas concentrações de micro, meso e macroplásticos de
toda a Macaronésia. Em média, registaram-se entre 40 a 50 partículas por metro
quadrado e cerca de meio grama de plástico por metro quadrado — valores
considerados muito reduzidos. Para comparação, existem praias nas Canárias com
concentrações que atingem 100 gramas por metro quadrado.
Segundo o investigador, a maioria dos plásticos encontrados
são fragmentos de plástico rígido, sobretudo polietileno e polipropileno, os
dois tipos mais produzidos mundialmente. Na Madeira, destaca-se também a
presença frequente de espumas (foam), um tipo de plástico branco e facilmente
deformável.
Hernández Borges explicou que os baixos níveis registados na
Região não significam necessariamente melhores práticas locais, mas antes uma
posição geográfica mais favorável face às correntes marítimas, que transportam
grande parte destes resíduos a partir de zonas distantes. Ainda assim,
sublinhou a importância de manter hábitos de reciclagem e prevenção.
O novo projecto pretende agora garantir a continuidade da
monitorização e implementar esta metodologia nas regiões macaronésicas que
ainda não dispõem de um programa estruturado, assegurando um acompanhamento
consistente ao longo dos próximos anos.
“A Madeira tem hoje concentrações baixas, mas amanhã não
sabemos”, alertou o investigador, reforçando que só a monitorização contínua
permitirá avaliar tendências e definir eventuais medidas futuras.
Mudança imposta por
questões de saúde
Na mesma ocasião, o director regional do Ambiente, Manuel
Ara de Oliveira, defendeu a importância da ciência e da monitorização contínua
na resposta aos desafios ambientais. Na sua intervenção, sublinhou que o
plástico é um material com inúmeras vantagens, leve, resistente, barato e
versátil, que revolucionou sectores como a conservação alimentar e o
transporte. O problema, afirmou, não é o plástico em si, mas a forma como é
utilizado e gerido no fim do seu ciclo de vida.
Segundo o governante, a
sociedade está hoje mais sensibilizada para o impacto do macroplástico, visível
nas praias ou associado a imagens marcantes, como animais marinhos presos em
redes. Essa pressão pública tem permitido influenciar políticas e promover
medidas concretas, nomeadamente ao nível da redução de embalagens e da procura
de alternativas.
Contudo, alertou que o
microplástico representa um desafio diferente e mais complexo, por ser
invisível e pelos seus potenciais impactos na saúde humana ainda não estarem
totalmente esclarecidos. Neste contexto, destacou o conceito ‘One Health’, que
integra saúde humana, animal e ambiental, defendendo que ambiente e saúde são
“duas faces da mesma moeda”.
Manuel Ara de Oliveira
recordou exemplos de outras problemáticas ambientais, como o amianto, para
demonstrar que decisões firmes só avançam quando existe evidência científica
clara dos riscos para a saúde. No caso dos microplásticos, considerou essencial
continuar a investigação para compreender melhor os seus efeitos, nomeadamente
quando ingeridos.
O governante referiu ainda que
algumas indústrias começam já a adoptar medidas preventivas, como a introdução
de filtros de microplásticos em máquinas de lavar roupa, uma das fontes
identificadas deste tipo de poluição. Mostrou-se, no entanto, mais céptico
quanto à eficácia de soluções centradas exclusivamente no tratamento em ETAR,
defendendo que a prevenção na origem será sempre mais eficaz do que a
remediação.
Sublinhou que projectos como o
agora apresentado são fundamentais para quantificar o problema, identificar
origens, garantir metodologias comparáveis entre regiões e apoiar decisões
políticas baseadas em dados científicos sólidos. Destacou também o trabalho
continuado desenvolvido na Região na monitorização do lixo marinho.
Por fim, manifestou o desejo
de ver reforçada a monitorização em zonas estratégicas como as Selvagens, pela
sua localização isolada no Atlântico, considerando que poderiam funcionar como
ponto de referência para avaliar o impacto das correntes oceânicas e o estado
ambiental do oceano.
O director regional concluiu felicitando os investigadores
pelo reforço do projecto e desejando continuidade ao trabalho científico na
área dos microplásticos.
A sessão decorre na Uiversidade da Madeira, mas está a ser transmitida on-line, nomeadamente, para os parceiros internacionais do projecto. Na apresentação, interveio também João Canning-Clode, coordenador do MARE-Madeira da ARDITI.
"O projeto 'Reforço e implementação de metodologias de monitorização de microplásticos na Macaronésia e sua transferência territorial”, financiado pelo Programa INTERREG MAC 2021-2027, cofinanciado em 85% pelo FEDER, é coordenado pela Universidade de La Laguna e tem como sócios a Universidade de Las Palmas de Gran Canária, a Secretaria Regional do Mar e das Pescas (Direção Regional de Políticas Marítimas), a ARDITI, a Universidade de Cabo Verde e a Universidade Gaston Berger (Senegal)."
