O investigador Pedro Cardoso alertou no sábado para a necessidade de
preservar as águas subterrâneas, em perigo por uso excessivo ou poluição,
apesar de representarem 95% dos recursos de água doce acessíveis da Terra,
incluindo água potável.
Pedro Cardoso é um dos autores de um estudo sobre ecossistemas
subterrâneos, publicado na revista científica "Biological Reviews",
que defende que as águas subterrâneas são a principal fonte de água para
consumo, irrigação e uso industrial.
No estudo os investigadores alertam que as águas subterrâneas são
95% dos recursos de água doce e que o seu uso pelos humanos está a exceder a
capacidade dos aquíferos em cerca de 3,5 vezes, pelo que o seu declínio está a
acelerar no mundo. Cerca de 43% da água para irrigação e 49% para uso doméstico
provêm das águas subterrâneas.
Em declarações à Lusa, o investigador da Faculdade de Ciências da
Universidade de Lisboa destaca a importância dos ecossistemas subterrâneos, que
são dos menos conhecidos do mundo.
O trabalho - "Subterranean environments contribute to
three-quarters of classified ecosystem servisses" (Os ambientes
subterrâneos contribuem para três quartos dos serviços ecossistémicos
classificados) - faz uma compilação de trabalhos científicos anteriores sobre a
importância dos ambientes subterrâneos e assenta no facto de sob a superfície
da Terra haver uma rede interligada de cavernas, cavidades e sistemas de fissuras,
um mundo praticamente inacessível mas que "sustenta e regula serviços
essenciais para a saúde ecológica e o bem-estar humano".
"Os ecossistemas subterrâneos são parte integrante dos
principais ciclos biogeoquímicos, sustentam diversos habitats superficiais e
servem como fonte primária de irrigação e água potável", contribuindo com
até 75% dos serviços ecossistémicos classificados (conhecidos normalmente como
serviços de aprovisionamento, regulação, apoio e cultural).
Pedro Cardoso explica que se trata de um ambiente que pode existir
perto da superfície, mas também a profundidades consideráveis, até centenas ou
mesmo milhares de metros.
"As grutas mais profundas conhecidas têm cerca de dois mil
metros de profundidade, mas podemos não ficar por aí", disse o
investigador, notando que os ambientes subterrâneos têm bastante mais vida do
que o que se supõe.
É certo, diz, que quanto maior a profundidade mais difícil é haver
vida, porque "a origem de todas as formas de vida subterrâneas, de uma
forma ou de outra, vem de organismos que vieram da superfície, mas consegue-se
encontrar organismos até mais de mil metros de profundidade, bactérias e outros
micro-organismos que conseguem sobreviver a profundidades muito grandes".
São bactérias, diz o investigador também especialista também em
ecologia e biologia da conservação, que produzem compostos que podem ter
aplicações na biotecnologia e na farmacêutica, alguns tipos de enzimas que
podem ser explorados em termos medicinais.
"E quase tudo está ainda por explorar, por dificuldade em
aceder a estes locais e dificuldade em perceber quais os compostos que podem
ter mais potencial ou não", acrescenta.
Ainda assim Pedro Cardoso avisa que há ecossistemas subterrâneos
em perigo por uso excessivo das reservas aquíferas e pelos poluentes que
colocados à superfície acabam nesses lençóis de água. "Tudo o que fazemos
cá em cima está a afetar estes sistemas", avisou, sugerindo, nomeadamente,
regras mais restritivas em relação à poluição dos solos.
O estudo, pioneiro, conclui que os ambientes subterrâneos têm um
papel fundamental "na manutenção de uma biosfera saudável" mas que
muitas das contribuições ecológicas e sociais ainda estão por quantificar.
Os ecossistemas subterrâneos fornecem água, alimentos (águas
subterrâneas suportam maior a parte da vegetação superficial, incluindo
culturas como o arroz), energia (geotermia), materiais (de minerais a rochas),
e "representam uma fonte de recursos biomoleculares em grande parte
inexplorada".
Dizem ainda os investigadores que devido às extensas interligações
entre a superfície e o subsolo, os ecossistemas subterrâneos são fundamentais
para os ciclos globais da água e (bio)geoquímicos, incluindo os do carbono,
azoto e outros elementos-chave.
Além de serem cruciais na manutenção de condições físicas e
químicas do planeta e na mitigação de poluentes e gases com efeito de estufa,
os ecossistemas subterrâneos têm ainda uma importância cultural, como por
exemplo as grutas, onde podem ser encontrados vestígios humanos ancestrais ou
formações naturais que são atrações turísticas.
