
1. Em 1935, Erwin Schrödinger imaginou um gato numa caixa com um mecanismo que poderia matá-lo, uma experiência mental em que a descrição quântica descrevia o animal como vivo e morto até se verificar o resultado. Os físicos podem realizar experiências terríveis sem antes, sequer, inaugurar o laboratório. Não suspeitava, coitado, que décadas depois bastaria desembarcar na Madeira e ouvir dois discursos para reconhecer um programa de governo. Somos ricos e pobres, modernos e atrasados, autónomos e dependentes, uma região de sucesso quando o gráfico sobe e vítima da insularidade quando chega a factura, liberais a cobrar, socialistas a distribuir, sustentáveis diante das câmaras e pragmáticos quando aparece uma costa disponível para outro resort. À segunda-feira, somos Singapura, com vista para as Desertas; à terça, um arquipélago abandonado pela República.
O gato espera.
A Autonomia é o nosso gato mais antigo. Aprendemos uma contabilidade admirável: quando corre bem, fomos nós; quando corre mal, foram eles. O dinheiro recebido foi conquistado; o dinheiro recusado foi roubado. A estrada pertence à visão estratégica regional; a falta de recursos traz Lisboa ao discurso, o tio antipático que explica os desastres domésticos. Se chover, ainda assim descobriremos uma compensação insuficiente pela ultraperiferia. Os conflitos com a República existem e o centralismo continua de excelente saúde. Isso não nos autoriza a reclamar decisões próprias atribuindo as consequências a terceiros. Exigimos competências como quem pede as chaves de casa sem perguntar pelas despesas.