Analistas ouvidos pela Lusa consideram que o eleitor indeciso foi o principal perdedor no primeiro debate entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, que disputam a segunda volta das presidenciais no Brasil.
Os especialistas apontaram excesso de ataques na noite de domingo e pouca discussão sobre propostas capazes de ajudar quem ainda procura uma razão para escolher um dos candidatos nas urnas no próximo domingo, dia 25.
O advogado e analista político Melillo Dinis afirmou que os dois candidatos tiveram momentos de vantagem, mas terminaram o confronto tendo oferecido sobretudo argumentos às próprias bases eleitorais.
"Ambos entregaram munição aos próprios apoiantes e menos razões do que poderiam para quem ainda procura uma escolha. A militância já entra no debate com o troféu comprado. O indeciso precisa ser convencido. Este foi o principal perdedor", afirmou.
O cientista político Alexandre Bandeira, analista-chefe do Grupo Brasília de Consultoria Política, também não apontou um vencedor inequívoco, considerando que o confronto terminou numa espécie de "decisão por pontos", sem que Lula ou Flávio conseguissem levar o adversário à lona.
Flávio obteve, na primeira volta, mais 2,2 milhões de votos que Lula da Silva, e atualmente as sondagens mostram ambos tecnicamente empatados numa margem percentual cada vez mais apertada.
Para Bandeira, Flávio teve no debate da TV Band uma ligeira vantagem no desempenho comunicacional, sobretudo pelo recurso à ironia, enquanto Lula adotou uma postura mais agressiva e beligerante.
"Eu acredito que o Flávio sai um pouquinho melhor", afirmou o analista, que considerou a postura do candidato do Partido Liberal (PL) mais descontraída e as suas frases mais facilmente transformáveis em cortes favoráveis na lógica televisiva e das redes sociais.
Dinis também identificou melhores momentos de Flávio, sobretudo quando o candidato apresentou respostas de compreensão imediata sobre segurança pública e procurou explicar a sua mudança de posição sobre a redução da jornada de trabalho como resultado da escuta dos trabalhadores.
Já Lula, na avaliação de Dinis, foi mais convincente quando relacionou a discussão sobre saúde à experiência da pandemia e quando propôs a abertura dos sigilos bancários dele e da família, numa tentativa de inverter a pressão e cobrar transparência do adversário.
O desempenho de Lula, porém, perdeu força quando as provocações passaram a determinar as suas respostas, segundo Dinis. Bandeira também avaliou que o Presidente protagonizou mais deslizes verbais durante o confronto.
Para os dois analistas, o principal problema foi que o debate acabou a privilegiar acusações e provocações em detrimento de uma discussão aprofundada sobre o futuro Governo.
O confronto abordou temas como o escândalo do Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro, preso por suspeitas de fraude financeira, além do escândalo de corrupção dos descontos indevidos de aposentados e pensionistas, explorados principalmente por Lula.
O candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) também questionou o financiamento do filme "Dark Horse", autobiografia de Jair Bolsonaro, enquanto Flávio levantou suspeitas sobre a atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha (filho de Lula), junto do Governo brasileiro.
Apesar de segurança pública, saúde, economia e jornada de trabalho terem entrado na discussão, Dinis considerou que faltou aprofundar como as propostas seriam executadas, financiadas e transformadas em políticas públicas.
"Promessa sem caminho de execução é desejo com microfone", afirmou o analista, para quem exigir explicações sobre suspeitas é legítimo, mas a acusação não pode substituir o programa de Governo.
Bandeira concorda e afirmou que o debate se aproximou mais de uma peça de entretenimento do que de um instrumento de formação democrática, com "muito ataque" e "quase nenhuma proposição" sobre os problemas do país.
Dinis classificou o encontro como o "ápice de um debate mal feito, mal pensado" e lamentou que os candidatos tenham perdido uma oportunidade de discutir os grandes desafios do próximo Governo, como saúde, economia, educação, ambiente e Amazónia.
Bandeira afirmou que os dois candidatos disputam o eleitor que não votou na primeira volta (33 milhões de pessoas), numa segunda volta em que abstenções, votos brancos e nulos tendem a ganhar peso.
No seu entender, Lula mira mais diretamente esse público, enquanto Flávio procura alcançá-lo ao lembrar que "o voto é secreto".
Segundo Dinis, essa frase de Flávio pode ser interpretada como uma tentativa de alcançar o chamado "voto envergonhado", mas ressalvou que o voto reservado não significa necessariamente apoio oculto ao candidato.
Para o analista, quem rejeita os dois candidatos não quer ser convocado para uma torcida, mas precisa encontrar uma razão para sair da dúvida.
