
Pedro Calado acordou, e imagino esse despertar como o de alguém que abre os tapasóis de um gabinete e encontra, onde julgava haver uma paisagem, pessoas, pessoas com contas dentro de envelopes, pessoas a demorar a mão sobre uma embalagem no supermercado, a devolvê-la à prateleira com o cuidado envergonhado de quem devolve uma coisa que chegou a pensar sua. Há mais de três anos que pergunto onde está esse PIB maravilhoso, a que mesas chega o crescimento estratosférico, que recibos paga o desenvolvimento deslumbrante, para que servem tantas empresas fantásticas, tanta tecnologia, tanta excelência, se, ao fim do mês, o dinheiro conhece tão mal o caminho de casa. Calado pergunta para onde vai a riqueza, e a pergunta merece resposta, merece que se interrompa a cerimónia, que se baixe o microfone, que se ouça o ruído de uma moeda a cair no fundo de uma carteira. O espanto do antigo governante merece outra conversa.