O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, foi hoje vaiado em
Madrid durante as cerimónias da Festa Nacional de Espanha, que este ano se
assinala num contexto de eleições antecipadas, agendadas para 29 de novembro.

Sánchez, que lidera o Partido Socialista Espanhol (PSOE), foi
recebido com insultos e vaias por centenas de pessoas ao chegar ao Passeio de
Recoletos, no centro de Madrid, para se juntar à tribuna com autoridades
oficiais que todos os anos, em 12 de outubro, assiste ao desfile militar da
Festa Nacional de Espanha (conhecida também como Dia da Hispanidade).

O desfile e a tribuna são presididos pelo Rei de Espanha, Felipe
VI, que à chegada ao local, acompanhado pela mulher, Letízia Ortiz, e as
filhas, Leonor e Sofía de Borbón, foi recebido com aplausos e gritos de
"Viva o Rei".

Ao contrário de todas as outras autoridades do país e de outros
líderes partidários representados no parlamento, o presidente do Vox
(extrema-direita), Santiago Abascal, não esteve nesta tribuna e fez uma visita
à cidade de Ceuta, ao lado do líder do partido francês União Nacional, Jordan
Bardella.

Abascal disse querer celebrar este dia com "os espanhóis que
defenderam a fronteira que Pedro Sánchez abandonou" e não querer estar
numa "tribuna cheia de traidores", numa referência aos elementos do
Governo.

Em declarações em Ceuta, cidade espanhola no norte de África onde
em julho entraram ilegalmente mais de 70.000 pessoas em 24 horas, Abascal e
Bardella, ambos de extrema-direita, defenderam ser necessário reforçar o
controlo das fronteiras nacionais e europeias para impedir a entrada de
migrantes de forma ilegal e "processos de remigração" na Europa em
alguns cenários e consideraram que se pode abrir "um novo tempo" em
Espanha e França em breve, com as eleições já anunciadas, assim como "em
toda a Europa".

Bardella criticou as políticas de imigração da esquerda, como as
de Pedro Sánchez, que considerou ter "consequências gravíssimas",
como a regularização extraordinária de imigrantes ou a atuação do governo
espanhol em Ceuta, que defendeu ter sido "um sinal de que se podem violar
impunemente as fronteiras europeias".

Abascal reiterou que em Ceuta não houve "uma invasão
migratória", mas "uma invasão fruto de uma guerra híbrida aproximada
por Marrocos e permitida" pelo Governo de Espanha, defendeu a
militarização da fronteira e prometeu mudanças legislativas para o
repatriamento imediato de quem entra ilegalmente no país se o Vox integrar o
próximo executivo.

Várias sondagens publicadas hoje pela imprensa espanhola, as
primeiras feitas após a convocatória de eleições antecipadas, revelam que o Vox
é o partido que mais poderá crescer em 29 de novembro, com a possibilidade de
duplicar o número atual de deputados (33).

Segundo a maioria das sondagens, o Vox é mesmo o único dos quatro
maiores partidos atualmente representados no parlamento que poderá crescer em
relação às eleições anteriores, de julho de 2023, e será imprescindível para o
Partido Popular (PP, direita) chegar à liderança do Governo.

As sondagens dão todas a vitória ao PP, mas sem maioria absoluta,
que só teria com uma aliança com o Vox. Os dois partidos têm assumido a
intenção de se coligarem após as eleições para tirarem o PSOE e a esquerda do
Governo.

Vox e PP estão, para já, a centrar os primeiros discursos e
iniciativas da pré-campanha em Ceuta, no controlo de fronteiras e na imigração.

Já o PSOE tem colocado o foco nos "avanços sociais" dos
últimos anos, que considera ameaçados se houver um governo de direita e
extrema-direita, e, mais em concreto, na crise na habitação, que tem levado à
rua milhares de pessoas em protestos nas últimas semanas.

O 'chumbo' no parlamento, por partidos de direita e
extrema-direita, de medidas para a habitação propostas pelo Governo precipitou
mesmo a queda do executivo e a antecipação de eleições por Sánchez.