O Museu Etnográfico da Madeira, espaço tutelado pela
Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura, através da Direcção Regional
da Cultura, abre ao público esta terça-feira, dia 16 de Dezembro, pelas 17h30,
a Lapinha do Caseiro.

"A Lapinha do Caseiro foi um dos mais célebres
presépios da Ilha, mantendo-se durante décadas como uma das grandes atrações do
Natal madeirense. Manteve-se exposta por mais de 70 anos, na Capela do Menino
Jesus, no Caminho do Monte, tornando-se um local de passagem e de devoção,
sobretudo no Natal, constituindo uma memória para consecutivas gerações de
madeirenses, razão determinante para a aposta na sua salvaguarda por parte do
Governo Regional da Madeira. A aquisição deste Presépio pela Secretaria
Regional de Turismo, Ambiente e Cultura ocorreu em 2015 e teve como objectivo a
manutenção da integridade e a preservação deste conjunto de mais de trezentas
peças, esculpidas em madeira de cedro", indica nota à imprensa.

Francisco Ferreira, o 'Caseiro', nasceu na freguesia do
Monte a 11 de Outubro de 1848. Artista autodidacta, cedo demonstrou aptidão para
talhar a madeira, esculpindo desde os seus 14 anos e tornando-se santeiro de
profissão.

Foi autor de inúmeras imagens que se mantêm na Ilha, na
posse de familiares, de particulares e dispersas por algumas igrejas (de Nossa
Senhora do Monte, de Santo António, no Funchal e da Tabua, na Ribeira Brava).
Outras perderam-se, possivelmente levadas para longe por emigrantes
devotos.

Para além de inúmeras figuras de Jesus Menino, de Cristo
adulto, realizou também outros santos: Nossa Senhora da Piedade, a Virgem do
Calvário, Nossa Senhora da Conceição, São João Baptista, São Francisco de Assis
e Santo António.

Mas a obra da sua vida foi, de facto, o presépio. Iniciado
na sua juventude, nele trabalhou até morrer, em 1931, tinha então 82 anos. Este
conjunto narra o longo percurso deste artesão, testemunhando toda a sua
evolução e a sua cada vez maior aptidão para talhar a madeira.

Francisco Ferreira não tinha instrução. Era a sua mulher e,
mais tarde, a sua filha, Augusta da Soledade Ferreira que se encarregavam de
lhe ler passagens do Antigo e do Novo Testamento. Profundamente devoto, assim
se inspirava para melhor interpretar e executar os vários episódios bíblicos
que ia introduzindo, à semelhança dos antigos quartos do Presépio que abrigavam
inúmeras cenas sagradas.

Depois surgem os pastores a representar a realidade
regional. São eles que melhor exprimem a real criatividade e a originalidade do
autor. Inúmeras figuras, ingénuas umas, caricatas outras, retratam a sociedade
urbana e rural madeirense, espelhando lides e ofícios quotidianos, vivências
locais, relacionadas sobretudo com a freguesia do Monte. Tipos populares,
vizinhos, amigos e o próprio Francisco Ferreira são figurantes únicos,
testemunhos de existências perdidas, que desta forma, quase que por magia, conseguimos
reencontrar.

Com o propósito de preservar e salvaguardar este precioso
testemunho do nosso património cultural, a colecção foi adquirida pelo Governo
Regional para integrar e enriquecer o acervo do Museu Etnográfico da Madeira.

Restaurada e incorporada no seu acervo, passou a integrar o
percurso da exposição permanente e é aberta ao público, anualmente, nesta
época, recuperando-se, desta forma, a tradicional visita dos madeirenses àquela
lapinha.

Também esta terça-feira, abre ao público a mostra Presépios
Sustentáveis, este ano sob o tema 'Criando com Pedra'. Esta actividade insere-se
no âmbito do Projecto 'Museu Sustentável', que tem como objectivo promover a
consciência para os efeitos da atuação humana sobre o ambiente e destacar o
papel dos museus no desenvolvimento de novos métodos de pensar e de agir, que
garantam o respeito pelos limites e pela diversidade da natureza.

Porque reutilizar é uma prioridade e porque o museu pretende
transmitir, especialmente aos mais jovens, a necessidade de repensar a nossa
forma de agir, protegendo o ambiente e promovendo uma vida sustentável,
organizam-se, no seio deste projecto, diferentes atividades, ao longo de todo o
ano, recorrendo à reutilização de materiais.

Neste Natal, tendo em conta a exposição temporária patente
ao público no museu 'Cantaria Mole. A obra', os participantes neste projeto
(instituições do concelho da Ribeira Brava, parceiras do museu), foram
desafiados a utilizar pedra, da nossa Região. A pedra natural é uma
matéria-prima, com grande expressão plástica, conferida pela sua cor e textura,
o que permite criar interessantes obras.

Eduardo Jesus, Secretário Regional de Turismo, Ambiente e
Cultura, sublinha que a abertura da Lapinha do Caseiro representa “um
momento de particular significado para a Região, por devolver aos madeirenses
um dos mais emblemáticos testemunhos da nossa memória coletiva”. Para o
governante, “este é um retrato vivo da sociedade madeirense de outros tempos,
da devoção popular e do génio criativo de Francisco Ferreira, cuja preservação
constitui uma responsabilidade pública”.

Relativamente à mostra Presépios Sustentáveis – Criando com
Pedra, Eduardo Jesus destaca que esta iniciativa “reforça o compromisso do
Museu Etnográfico da Madeira com a sustentabilidade e com a educação para novas
formas de pensar e agir”. Segundo o responsável, “ao associar a tradição do
presépio à reutilização de materiais naturais da Região, como a pedra, o museu
promove valores ambientais, estimula a criatividade e envolve a comunidade,
sobretudo os mais jovens, numa reflexão essencial sobre a proteção do
património natural”.

O Secretário Regional acrescenta ainda que “estas duas
exposições, embora distintas, complementam-se na missão do museu: preservar o
património cultural, valorizar a identidade madeirense e, simultaneamente,
projetar um futuro mais consciente e sustentável”.

As duas mostras poderão ser visitadas até 30 de Janeiro de
2026.