O secretário-geral da ONU,
António Guterres, considerou hoje a doca artificial instalada pelos Estados
Unidos na Faixa de Gaza, que entrou hoje em funcionamento, insuficiente para
suprir as necessidades humanitárias no enclave palestiniano, segundo o seu
porta-voz adjunto.
"A questão fundamental é: Seremos capazes de fazer entrar
ajuda suficiente para manter as pessoas vivas? Já deixámos muito claro que, a
menos que as coisas mudem radicalmente para melhor, a resposta é não (...).
Precisamos de ver melhorias em muitas áreas diferentes", respondeu o
porta-voz adjunto, Farhan Haq, questionado em conferência de imprensa sobre a
eficácia da nova doca.
O corredor humanitário marítimo permitirá entregar cerca de 500
toneladas de ajuda em dois dias e ajudar mais de dois milhões de pessoas em risco
de fome, segundo o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Pentágono).
Mas o porta-voz adjunto de Guterres sublinhou que "dadas as
enormes necessidades em Gaza", o corredor "se destina a complementar
os pontos de passagem terrestres (...), nomeadamente Rafah, Kerem Shalom e
Erez", mas "não a substituir qualquer deles".
Haq assegurou, no entanto, que a ONU está "grata" aos
Estados Unidos, a Chipre e a outros Estados por terem ajudado a criar o chamado
"corredor marítimo", um mecanismo que as Nações Unidas apoiarão
"desde que respeite a neutralidade e a independência das operações
humanitárias".
Nas numerosas perguntas feitas sobre a nova doca artificial, ficou
claro que ainda há muitas dúvidas sobre como funcionará, principalmente
relacionadas com a segurança.
Por exemplo, sobre se será o Exército israelita a fornecer
proteção às colunas humanitárias que saem da doca para o interior do território
palestiniano há mais de sete meses afetado por uma ofensiva de Israel, Farhan
Haq limitou-se a responder que foram criados "mecanismos de
segurança" e que se vai agora verificar "como funcionam".
A ajuda internacional, rigorosamente controlada pelas autoridades
israelitas, já estava a chegar a conta-gotas, mas a sua entrada na Faixa de
Gaza está agora praticamente bloqueada nos dois principais pontos de passagem
fronteiriça - Kerem Shalom, a partir de Israel, e Rafah, através do qual o
combustível costumava ser transportado a partir do Egito.
Hoje, o porta-voz adjunto de António Guterres sublinhou que a
ajuda humanitária "não pode nem deve depender de uma doca flutuante,
distante dos locais onde as necessidades são mais agudas", porque quer a
ajuda chegue "por mar ou por estrada, sem combustível, ela não chegará às
pessoas que dela necessitam".
Israel declarou a 07 de outubro do ano passado uma guerra na Faixa
de Gaza para "erradicar" o movimento islamita palestiniano Hamas
depois de este, horas antes, ter realizado em território israelita um ataque de
proporções sem precedentes, matando mais de 1.170 pessoas, na maioria civis.
O Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) -- desde 2007 no poder
em Gaza e classificado como organização terrorista pelos Estados Unidos, a
União Europeia e Israel -- fez também mais de 250 reféns, 125 dos quais
permanecem em cativeiro e 37 morreram entretanto, segundo o mais recente
balanço do Exército israelita.
A guerra, que hoje entrou no 224.º dia e continua a ameaçar
alastrar a toda a região do Médio Oriente, fez até agora na Faixa de Gaza mais
de 35.300 mortos e 79.000 feridos e cerca de 10.000 desaparecidos,
presumivelmente soterrados nos escombros, na maioria civis, de acordo com
números atualizados das autoridades locais.
O conflito causou também quase dois milhões de deslocados,
mergulhando o enclave palestiniano sobrepovoado e pobre numa grave crise
humanitária, com mais de 1,1 milhões de pessoas numa "situação de fome
catastrófica" que está a fazer vítimas - "o número mais elevado
alguma vez registado" pela ONU em estudos sobre segurança alimentar no
mundo.
