Os presidentes de Portugal e Cabo Verde afastaram hoje o espetro
das reparações e celebraram uma "relação de excelência", "sem
tabus", ao discursar num encontro com a comunidade portuguesa, na Praia.
Marcelo Rebelo de Sousa descreveu o acolhimento no arquipélago
como algo que "não tem qualificativos. É mais do que uma mera fraternidade,
é uma cumplicidade" que responde a "algumas angústias" que
possam existir sobre o passado.
"Tenho a sensação de que nos damos melhor do que da última
vez. A cooperação é melhor", assim como "a partilha e a parceria
entre os dois países e governos é melhor", acrescentou, depois de, durante
a tarde, referir que as reparações que Portugal deve às ex-colónias já estarem
a ser concretizadas através da cooperação bilateral.
"Até fico preocupado porque, normalmente, quando tudo corre a
este nível de excelência, começamos a pensar: o que é que pode correr um
bocadinho menos bem? Mas não conseguimos encontrar nada", disse Marcelo
Rebelo de Sousa.
Durante a receção à comunidade portuguesa na residência do
embaixador português em Cabo Verde, Marcelo disse depois ao seu homólogo José
Maria Neves que assumisse o papel protocolar habitualmente reservado ao
Presidente português e fosse ele o último a discursar.
O chefe de Estado cabo-verdiano aludiu às questões que lhe têm
sido feitas pelos jornalistas sobre as declarações de Marcelo, acerca das
reparações, para dizer que "não há temas tabu em democracia".
"E, entre nós, com a maturidade que já temos, podemos
conversar como gente que se entende", referiu, depois de, durante o dia,
ter remetido o tema para um debate com "serenidades".
"Não haverá nenhuma tempestade no futuro em relação aos
debates que nós podemos fazer. Cabo Verde e Portugal entendem-se muito bem. As
relações são excelentes, muito maduras. E de todas as nossas discussões podem
ainda sair novas luzes para construirmos um novo futuro", disse.
José Maria Neves quer que Portugal "continue a ser esse país
farol", cuja revolução "se transformou em cravos" e promoveu a
democracia.
"Tenho certeza que juntos vamos continuar a seguir esse
caminho do reforço das liberdades de afirmação da democracia", concluiu.
Os dois chefes de Estado voltarão a estar juntos na quarta-feira
para as comemorações dos 50 anos de libertação do campo de concentração do
Tarrafal, em que participam também o Presidente da Guiné-Bissau, Sissoco
Embalo, e o ministro da Defesa de Angola em representação do chefe de Estado,
João Lourenço.
