O Núcleo Regional da Quercus da Madeira emitiu um comunicado, esta quarta-feira, dando sugestões para um Natal mais sustentável:
O Natal é um
período que deveria ser de introspeção, de paz, de solidariedade. A luz deveria vir dos nossos corações, mais
do que dos milhares de lâmpadas que iluminam o território. O frenesim do
consumo deveria dar lugar à reflexão sobre as nossas reais necessidades e à
avaliação das implicações ambientais e sociais dos bens e serviços que
consumimos, de forma a fazermos opções informadas e conscientes. O mundo está
cheio de lixo: das células dos aterros planeados, às lixeiras fortuitas; das
“ilhas” de plástico dos oceanos, às montanhas de lixo em praias africanas; das
cidades densamente povoadas, às áreas mais remotas, todos os locais do planeta têm
já essa marca insana do viver insustentável da sociedade humana - extrair recursos
para a produção de bens insaciavelmente consumidos e depois descartados. O clima está diferente e a mudar
mais rapidamente do que era suposto. As perspectivas são piores do que as
previsões anteriores. Temos cada vez menos tempo para nos prepararmos e menos
margem para nos adaptarmos às alterações climáticas. Não foi por falta de
aviso! Há anos que cientistas do clima, ambientalistas e cidadãos preocupados têm
alertado para as consequências dramáticas para o planeta e para a vida humana. As
respostas dos governos têm sido modestas e aquém do necessário. As mudanças na
sociedade são lentas e dificultadas por conflitos de interesses. A mobilização
exigida vê-se enfraquecida pela indiferença e pela dificuldade de questionar e
alterar quase todas as decisões do dia a dia, de modo a tornar o nosso modo de
vida mais sustentável.
Sugestões
- Adquirir
apenas aquilo que realmente é preciso, sejam bens ou serviços. É uma ilusão
pensar que necessidades de valorização pessoal e de afirmação social podem ser
alcançadas através da exibição de veículos, relógios, jóias, produtos
tecnológicos, roupas, viagens etc. Não nos deixemos enganar pela publicidade,
modas ou “influencers”!
- Considerar
os impactos das opções no ambiente. Ao escolhermos um produto
devemos, tanto quanto possível, considerar as implicações ambientais do seu processo
de produção, da sua utilização e dos resíduos que originará após o seu tempo de
vida útil. Ter ainda em conta a distância entre os locais de produção e de
consumo, a durabilidade do produto e outras características que afetem o
ambiente e a sociedade. Para nos ajudar nessa tarefa podemos atender a diversos
tipos de certificação ou rótulos. Alguns exemplos são a Etiqueta energética, o
rótulo ecológico europeu (Ecolabel), a certificação biológica, a certificação
da gestão florestal (FSC), o comércio justo (Fair Trade) e a certificação da
circularidade de materiais e desempenho ambiental (Cradle to cradle). O nosso
sentido crítico e curiosidade devem ser sempre usados.
- Evitar o
desperdício alimentar. A produção de alimentos tem um grande impacto no
ambiente, sendo responsável pela emissão de uma parte significativa dos gases
com efeito de estufa que causam o aquecimento global. Por esta razão é muito
importante evitar o desperdício de alimentos, comprando apenas o necessário e
fazendo uma gestão adequada que minimize as perdas. A época de Natal, com os
habituais convívios e frequentes excessos, requer particular cuidado. Num
planeta em que muitos ainda sofrem com a escassez de alimentos, o seu
desperdício nesta quadra é particularmente cruel e ofensivo dos valores
celebrados.
- Reduzir o
consumo de carne, especialmente de ruminantes, e de produtos lácteos é uma
das ações individuais mais positivas e efetivas que podemos ter sobre o
ambiente. Isto porque a digestão dos ruminantes produz metano, um potente gás
com efeito de estufa, mas também porque a produção de carne exige mais água e
área de cultivo para a alimentação animal. Posicionarmo-nos mais abaixo na
cadeia alimentar é benéfico para a nossa saúde e para o ambiente.
- Preferir alimentos
de origem local ou regional relativamente a outros provenientes de regiões distantes,
por envolverem menos transporte e emissões de gases com efeito de estufa.
Escolher, se possível, produtos biológicos e até mesmo produzir alguns dos
nossos alimentos também é relevante. Na região, a importação de cerca de 90%
dos alimentos que consumimos constitui uma grande vulnerabilidade. Dificuldades
de abastecimento resultantes de conflitos ou por escassez na origem não são,
infelizmente, hipóteses remotas, pelo que deveríamos acautelar uma maior
autonomia alimentar.
- Preparar as refeições dá-nos maior controlo sobre o que temos no prato. No Natal, essa preparação é ainda tempo de
convivialidade e partilha. Também nos permite evitar alguns resíduos de
embalagens, comparativamente à aquisição de comida já confeccionada em estabelecimentos
de takeaway. No entanto, se esta for a sua opção, relembramos que é possível
levar os seus próprios recipientes para transportar as refeições até sua casa.
- Racionalizar
os consumos de energia. Estão actualmente disponíveis lâmpadas e iluminações
com uma eficiência energética muito superior às das existentes no passado,
podendo o seu uso traduzir-se numa poupança de energia. Contudo, essa vantagem
pode ser reduzida se aumentarmos as áreas que iluminamos. Além disso, convém
não esquecer que, na região, a energia que utilizamos ainda é maioritariamente
proveniente da queima de combustíveis fósseis. Se esta realidade nos incomoda,
devemos ter a racionalidade de restringir os consumos aos usos imprescindíveis
e cortar nos acessórios. As iluminações de Natal caem claramente nesta última
categoria, pelo que se sugere a sobriedade.
- Considerar
as prendas imateriais. Precisamos de fazer tantas compras e de oferecer
tantos presentes? A presença amiga, o gesto solidário, o afecto e a alegria
genuína valem muito. São ótimas prendas, tal como oferecer o seu tempo para
ajudar nalguma tarefa ou na resolução de um problema.
Vivamos o
Natal e as nossas vidas sem esquecer a melhor prenda que podemos dar às
gerações futuras - um planeta habitável onde possam viver em paz e com o
essencial para uma vida plena, em equilíbrio com a natureza e com um capital de
recursos que lhes permita fazer face aos desafios do seu tempo!
