Com os seus 93 anos, foi com ritmo físico e frescura mental invejáveis que, esta
manhã, o bispo emérito do Funchal Teodoro de Faria guiou as cerca de três dezenas
de convidados até ao último piso do Museu de Arte Sacra, onde passa a estar
aberto ao público um núcleo expositivo com 56 de um conjunto de 101 ícones
religiosos que coleccionou ao longo da sua vida e que doou à instituição
que os passa a exibir. São imagens religiosas originárias de países ortodoxos
orientais, com as quais o antigo chefe da igreja madeirense se encantou e
passou a coleccionar, particularmente a partir da fase dos seus estudos em
Roma, na primeira metade do século XX.

No acto de abertura da exposição, Teodoro de Faria fez um
longo enquadramento histórico, artístico e religioso sobre as origens e a
evolução da iconografia, desde a fundação de Constantinopla no ano de 330 até
aos nossos dias. Já o actual bispo do Funchal, Nuno Brás, destacou algumas
particularidades dos ícones. Desde logo, não se trata de “pintura fácil”: “Nós
estamos muito habituados à pintura de autor. Um quadro de Van Gogh é logo
considerado muito bom. Basta ter a assinatura. Os ícones não têm autor e a assinatura do artista, porque não são expressão de um sentimento individual e
subjectivo. Os ícones são teologia e o ícone é tão mais belo quanto mais
expressa a verdade da fé. É uma forma de mostrar a doutrina, de mostrar Deus
feito homem”. Segundo o bispo, outra característica desta forma de arte “é a
inversão da perspectiva”. “ Nós estamos muito habituados a sermos nós a
contemplar a obra de arte. Os ícones são o contrário (...). Representam o
mistério de Cristo que nos olha e que nos convida a estarmos com Ele",
explicou.

O presidente da Assembleia Legislativa da
Madeira, José Manuel Rodrigues, agradeceu a Teodoro de Faria o "acto generoso e de
desprendimento" de doação da sua colecção mas também por "tudo aquilo que
fez à frente da nossa Diocese". Destacou ainda o facto das obras do Museu
de Arte Sacra representarem seis séculos de História da Madeira e fez um apelo
para que os madeirenses visitem e apoiem mais esta instituição. "Este
Museu é um ex-libris da Região Autónoma da Madeira, conta a nossa História, faz
parte da nossa identidade cultural. Os madeirenses podem usufruir da beleza, do
mistério e da religiosidade das obras que aqui estão presentes e com isso
enriquecem culturalmente", adiantou.

A directora do Museu de Arte Sacra, Graça
Alves, enalteceu o trabalho dos vários profissionais que preparam o espaço e o
espólio para a exposição, bem como o apoio da Diocese do Funchal e do Grupo
Pestana, que viabilizaram a criação deste novo núcleo. Manifestou também gratidão a D. Teodoro:
"Nós sabemos bem a falta que estes cem ícones lhe fazem. Acompanhámos a
despedida que lhe entristeceu a casa. Mas também a alegria que, ao doar esta
colecção à Diocese, dá para ver o que é cada vez mais difícil, o ser humano já
transfigurado no sagrado".

Na apresentação deste núcleo museológico estiveram
presentes três bispos do Funchal (os eméritos Teodoro Faria e António Carrilho
e Nuno Brás), bem como a directora regional da Cultura, Natércia
Xavier, além do antigo presidente do Governo, Alberto João Jardim.