A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, pediu ontem ao seu
antecessor Giuliano Amato que ponha "à disposição do Governo" os
elementos que alegadamente comprovam que um míssil francês abateu um avião
italiano que se despenhou em 1980.
Segundo Amato, a aeronave, que caiu no mar junto à ilha italiana
de Ustica (sul) com 81 pessoas a bordo, foi abatida por um míssil francês
destinado a matar o ditador líbio Muammar Kadhafi.
"As palavras de Amato são palavras importantes, que merecem
atenção", embora correspondam a "deduções pessoais", escreveu
Meloni nas redes sociais, recordando que "nenhum registo relativo à
tragédia do DC9 se encontra ao abrigo do segredo de Estado" e que "as
autoridades judiciais e as comissões parlamentares de investigação levaram a
cabo um grande trabalho ao longo de décadas".
Por isso, "pergunto ao ex-primeiro-ministro Amato se, além
das deduções, está na posse de elementos que permitam alterar as conclusões do
poder judicial e do parlamento e se os coloca à disposição do Governo, para que
possa dar todos os passos necessários", acrescentou Meloni.
A tragédia de Ustica, um dos maiores enigmas da aviação italiana,
continua envolta em mistério, mais de quatro décadas depois, uma vez que as
investigações posteriores apontaram para que o avião tenha sido abatido, mas
nunca foram conhecidas as causas nem os autores.
"A versão mais credível é a da responsabilidade da Força
Aérea Francesa, com a cumplicidade dos norte-americanos e de quem participou na
guerra aérea nos nossos céus na noite daquele 27 de junho", sustentou
Amato numa entrevista sábado publicada no diário La Repubblica.
"O plano era eliminar Kadhafi, que voava num MIG da sua Força
Aérea. E o plano era simular um exercício da NATO, com muitos aviões em ação,
no decurso do qual seria disparado um míssil contra o líder líbio: o exercício
era uma encenação que permitiria fazer passar o ataque por um 'acidente
involuntário'", afirmou.
No entanto, as coisas aconteceram de forma diferente, pois
"Kadhafi foi advertido do perigo (pelo falecido líder socialista italiano
Bettino Craxi, diz Amato) e não embarcou no seu avião. E o míssil lançado
contra o MIG líbio acabou por atingir o DC9 da Itavia, que se despenhou com 81
inocentes dentro", acrescentou o ex-presidente do Tribunal Constitucional,
exigindo um pedido de desculpas de França.
Estas declarações suscitaram uma tempestade de reações, não só das
famílias das vítimas, que agradeceram as suas palavras, como daqueles que as
consideram historicamente incorretas, embora a maioria exija que apresente
provas.
A presidente da associação dos familiares das vítimas, Daria
Bonfietti, afirmou: "[As palavras de Amato] são muito importantes e uma
correta reconstrução de tudo o que há nos documentos, de que sabemos há
anos".
"Agora, espero alguma coisa de França e que o Governo
italiano atue para a responsabilizar. Não está certo que os nossos aliados nos
tratem assim", acrescentou, em declarações à imprensa local.
O vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini classificou as
afirmações de Amato como "de uma gravidade sem precedentes",
perguntou "se existem elementos concretos que sustentem as suas
palavras" e acrescentou: "Dado o peso das declarações e o seu papel
relevante na altura dos acontecimentos, aguardamos os comentários das
autoridades francesas".
Entretanto, a filha de Bettino Craxi - o dirigente socialista que,
segundo Amato, avisou Kadhafi de que ia ser alvo de um atentado - indicou que
Amato confundiu as datas, porque o seu pai alertou o líder líbio, mas em 1986,
não em 1980.
"É uma reconstrução que choca pelas imprecisões históricas
que contém", afirmou Stefania Craxi, senadora da conservadora Força
Itália.