“Estamos habituados a que o mundo gire à volta do
dinheiro, do poder ou do prazer. É assim o modo de viver do nosso tempo, que há
muito abandonou a consciência de viver na Presença de Deus. Precisamos de um
mundo novo que viva à volta da Presença de Deus”. Palavras do Bispo do Funchal
na homilia final do Corpo de Deus.

Foi na terceira e última parte da exortação religiosa fundada
no Evangelho que D. Nuno Brás, dirigindo-se à multidão de fiéis presentes na missa
campal na Praça do Município/Largo do Colégio, lançou um forte apelo de mudança:
“Precisamos hoje daquilo a que poderíamos chamar ‘uma verdadeira revolução
eucarística’. Precisamos — cada um de nós e todos como sociedade — de nos
deixarmos tocar e transformar por este Jesus que passa pelas ruas da nossa
cidade. Precisamos de deixar que Ele nos alimente com a sua Vida, porque
estamos demasiado envolvidos por uma cultura da morte. Precisamos de deixar que
a Presença do Senhor na Eucaristia nos cure do nosso egoísmo, para sermos
capazes de olhar em primeiro lugar para o outro e para as suas necessidades —
sabendo que nenhum de nós será feliz, será capaz de chegar à vida verdadeira,
sem tornar felizes aqueles que se encontram ao seu lado. Precisamos de deixar
que a Presença de Jesus na Eucaristia nos faça olhar mais longe, libertando-nos
do ritmo infernal do dia-a-dia, mostrando-nos que a vida humana não se limita a
este pedaço de tempo mais ou menos curto em que habitamos este mundo, mas é,
antes, uma vida para sempre — e que a Vida Eterna apenas a encontramos com Deus
e em Deus. Precisamos que a Presença de Jesus na Eucaristia nos ajude a
respeitar melhor o mundo por Ele criado, e colocado à nossa disposição a fim de
crescermos interior e exteriormente no Seu louvor, mostrando e proclamando as
Suas maravilhas. Precisamos que a Presença de Jesus na Eucaristia nos torne
mais unidos uns aos outros, partilhando e vivendo a fé como irmãos. Precisamos
que a Presença de Jesus na Eucaristia nos faça mais Seus e nos ajude a rezar,
cada vez mais intensa e duradoiramente, e a perdoar a todos quantos nos
ofenderam”, declarou.

Quatro anos depois as celebrações associadas à Festa do
Corpo de Deus na Madeira voltam a ter o fulgor dos tempos da pré-pandemia, com
o retomar da celebração entre a Praça do Município/Largo do Colégio e a Sé do
Funchal, incluindo a procissão após a missa campal que irá percorrer algumas
das principais ruas do centro da cidade.

Concluiu o sermão pedido a todos os que irão acompanhar o
retomar da tradicional procissão até a Catedral a aproveitar o memento para
pedir perdão a Jesus “por tantas vezes o ignorarmos e ofendermos. Por vivermos
como se Ele não existisse ou não estivesse presente na nossa vida. Mas peçamos-lhe,
sobretudo, para as nossas ilhas e para todo o nosso país, a graça de nos
deixarmos envolver e transformar segundo a Sua vontade. E peçamos-lhe, também,
a força para contribuirmos para o bem daqueles que estão à nossa volta e para o
bem de toda a nossa Região”, concretizou.

Antes, o prelado madeirense começara a intervenção baseada
no Evangelho, primeiro com referência à “afirmação de Jesus que convidava a ‘comer
a Carne do Filho do Homem’ escandalizou os judeus do seu tempo. Escandalizou
mesmo os discípulos. E continua a escandalizar muitos, mesmo cristãos”,
apontou. Depois falou da “ressurreição e ascensão aos céus do Senhor” para
destacar a importância da “Presença eucarística de Jesus”, porque ao contrário,
“o esquecimento dessa Presença tem originado perdas incontáveis, retrocessos,
não só na vida da fé, mas também na civilização, na humanidade com que somos
capazes de viver”, afirmou.