A
questão imobiliária “é bastante interessante” e voltou a merecer diversas considerações do painel de economistas do Debate da Semana emitido pela TSF-Madeira.
Cristina
Pedra, André Barreto e Paulo Pereira tornaram a abordar o assunto, neste caso
em concreto o paradigma regional.

Confrontado
por Ricardo Miguel Oliveira com o facto desta semana termos ficado a saber que o aumento da venda de casas no último
ano provocou uma descida de 5% no 'stock' do parque habitacional disponível à
venda na Madeira, Paulo Pereira foi questionado sobre
quem pode, afinal, comprar ou até alugar casa, na Região. Para
o economista “no seu grosso” tudo está ligado a “uma grande consequência de
acções desejadas ou indesejadas, previstas ou não, de políticos”.

Isto
vem num processo de impressão de dinheiro que culminou numa inflacção generalizada.
Estamos desde a crise de 2008 a imprimir dinheiro. Para tudo o que é problema
imprime-se dinheiro. Como vivemos do imediato - meto um post e se não tenho um
like entro em depressão -os políticos acham que se imprimirem dinheiro não têm
logo a inflação e que ela não existe.
— Paulo Pereira

Paulo
Pereira recordou que “vivemos anos de bolsas a disparar", tal como "o mercado obrigacionista" e "o mercado de arte”, pelo que “qualquer peça
de arte valia milhões”, bem como “carros antigos e imobiliário”. “Obviamente
que aqui as coisas chegam tarde, tal como o primeiro caso de Covid, mas chegou. Chega sempre”, frisou.

E
chegou “porque há pessoas com muito dinheiro” e “os vistos gold vieram empurrar mais gente rica para aqui” quando o que realmente queriam era investir em Lisboa e no Porto
– “onde eles queriam estar”.

Foi
neste ponto que o economista alertou para a questão de em Portugal “a carga
fiscal na construção de casas e apartamentos” representar “50% do custo final
do imóvel”.

Aqueles
que andam preocupados com os pobres e a classe média, que não têm acesso à
habitação, vão lá buscar 50%.
— Paulo Pereira

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Além
disso “temos também a questão de toda uma burocracia associada à construção” num país que é “um inferno” no processo de legalização da habitação.
Tais entraves à volta da 'papelada' fazem com que “os promotores imobiliários”
sintam “tanto risco e tanta incerteza que ainda metem mais margem”.

“É
o índice de cagaço e em Portugal este índice de cagaço é muito alargado. Temos
de meter muita margem em cima”, criticou.

Se quero estar
neste negócio vou apontar as minhas baterias àqueles que são menos sensíveis a
variações de 150 mil euros. Vou para o luxo, porque os daqui já estão fora do
mercado. O Plano de Recuperação e Resiliência vem agora com 120 milhões, o
presidente do Governo não quer fazer bairros sociais – quer diluir isto tudo. Estou
desejando de ver se haverá uma nova Bagdad ao lado no novo Dubai. Poderá ser
curioso. Para ficar equilibrado o Funchal. Isto, a prazo, e já está a acontecer,
vamos andar com as cestas básicas na habitação. Já andámos com as cestas
básicas na alimentação – e as autárquicas foram um bom exemplo dessa
necessidade – e agora vamos estar a empurrar a população, em nome do
assistencialismo, para esta situação. É impossível as pessoas pagarem estes
preços. Não se pode fazer nada quanto a isto e a única solução que temos a
médio e longo prazo é aumentar salários, para que as pessoas possam acompanhar
todo o processo.
— Paulo Pereira

Então,
como é que se aumenta salários? “Voltamos à mesma questão: só vai lá com
aumentos de produtividade”. Seguindo
a lógica de Paulo Pereira, “as empresas não podem pagar mais por decreto” e “para
haver mais produtividade tem de haver bons investimentos: em pessoas, em
máquinas, em estruturas, e para isso as pessoas precisam de capital. Não é de
dívidas, nem de mais esmolas. É de capital”.

E
isto leva-nos a “uma palavra que as pessoas odeiam neste país: com lucros
acumulados e poupanças acumuladas nas famílias”. É por isso que “as empresas,
além da sua pequena dimensão, têm problemas de capital”.

Paulo Pereira diz que o índice de cagaço é muito elevado em Portugal.
Paulo Pereira diz que o índice de cagaço é muito elevado em Portugal.

Mão-de-obra tende a ir procurar trabalho na construção civil

André Barreto comungou da visão de Paulo Pereira e olhou para "este
fomento do sector imobiliário" trazer "ainda outra questão a jusante".

Sendo este "um
sector pouco fiscalizado e com um histórico de vencimentos, entre aquilo que é
oficial e aquilo que se paga por fora - mais alto que noutras indústrias - a
mão-de-obra tende a ir procurar trabalho" nesta área, "muito naturalmente, porque com
18 anos" se um jovem "vai para pedreiro leva para casa 1.000 euros limpinhos".

"Se for estudar
recebe 800 euros brutos. A opção é evidente e o que é que acontece? Falta
noutros lados e acabamos por agravar aquilo que para mim é o nosso maior
problema económico há décadas que é o baixíssimo nível de formação da nossa
população. É verdade que isto dá para vender apartamentos em bitcoins, mas
continuo a achar que o problema é outro", defendeu.

Num
território onde o terreno é um bem escasso e onde só se permite construir num
terço desse território acho que seria importante pensar com outro cuidado o que
se anda a fazer sob pena de continuarmos a ajudar destruir aquele que para mim
é o nosso maior património, que é esta belíssima ilha bafejada pela natureza
com estas condições que temos diariamente a possibilidade de usufruir.
— André Barreto

André
Barreto que visou os “edifícios que ultrapassam em mais do dobro o índice de
construção estabelecido”, as “experiências de construção tipo LEGO em zonas
novas da cidade” ou a “cogumelização de parte da cidade que está igual a
Canárias no seu pior”. Tudo isto com “um impacto grande em quem nos visita” e
que “acabam por ter a sensação de que isto é mesmo para turista”.

Podemos vir a ter uma bolha

Quanto a Cristina Pedra, a vice-presidente da Câmara Municipal do Funchal admitiu a possibilidade de virmos a ter uma bolha.

"Diria
que grande parte da oferta imobiliária que existe hoje não é para o mercado
regional. Não é para os jovens, não é para a classe média”, referiu a
economista, ligando a dois factores o interesse no investimento estrangeiro na
aquisição de habitação na Região: imobiliário como forma de distribuir diversos
investimentos e, por outro lado, uma zona de entrada para a Europa através dos
vistos gold.

Tais
evidências fazem “com que exista procura para o mercado elevado, de qualidade,
e se existir algum travão para que deixem de fazer esta procura teremos aqui
uma grande bolha imobiliária, porque não está sequer adequada ao tecido
regional e poderá deixar de ter a procura internacional”.

Apesar
da hipótese que foi levantada, Cristina Pedra assume que “felizmente tudo o que
está a ser construído” já se encontra “previamente” vendido.