O Governo vai extinguir a Fundação José Berardo, depois de um relatório da Inspecção-Geral das Finanças ter concluído que a entidade promovia atividades fora do seu âmbito de actuação legal. A notícia é avançada hoje, dia 7 de Janeiro, pelo Observador.
De acordo com a publicação, uma decisão do tribunal da Madeira (no âmbito
do processo n.º 5774/17.7T8FNC) terá suscitado dúvidas sobre a compatibilidade
do objecto social da Fundação com o investimento “de risco” associado à
aquisição de acções. A Fundação comprou, entre outros títulos, acções do BCP, o
que levou à contração de avultados créditos junto da Caixa Geral de Depósitos,
tornando Joe Berardo um dos maiores devedores do banco público.
Com base na decisão judicial, a Inspecção-Geral de Finanças (IGF) realizou
uma auditoria à entidade, no âmbito da qual “foram recolhidos elementos que
indicam que o fim real da Fundação não coincide com o fim previsto no acto de
instituição, o que constitui causa de extinção de fundações privadas por parte
da entidade competente para o reconhecimento”, refere o periódico.
Esta decisão do Governo não está relacionada com os actuais processos que
decorrem na justiça contra Joe Berardo.
Uma das razões para a extinção pelo Estado é determinada pelo facto de que “as
actividades desenvolvidas demonstrarem que o fim real não coincide com o fim
previsto no acto de instituição”, segundo o diploma legal em vigor.
O mesmo jornal, que cita fonte do Ministério da Presidência do Conselho de
Ministros, revela que“o procedimento administrativo com vista à extinção foi
iniciado oficiosamente a 5 de Janeiro de 2022”.
Os bancos credores, Caixa Geral de Depósitos, BCP e Novo Banco, já terão
sido notificados.
Os bens da fundação deverão ficar entre os bancos que estão a executar
dívidas e para pagar outras dívidas que possam existir, pelo que, quando houver
decisão final e oficial da extinção, seguir-se-á abertura do processo de
liquidação do património com nomeação de liquidatários.
Se entre
pagamentos a liquidatários e dívidas à banca sobrarem activos, os bens podem
ficar com Joe Berardo ou outros membros da fundação.
A Fundação Berardo foi por si criada, a 12 de Novembro de 1988, e da qual é
presidente honorário vitalício, mas também como presidente do conselho de
administração e presidente do conselho de curadores.
Esta será a primeira
fundação privada a ser extinta pelo Governo, uma vez que embora outras fundações
tenham cessado actividades com ordem de encerramento, nenhuma delas foi por
iniciativa da Secretaria-geral da Presidência de Conselho de Ministros, a
entidade competente para o efeito.
O próprio Governo
admite não ter conhecimento de nenhum outro caso de extinção por iniciativa da
entidade competente para o reconhecimento.
A existência desta
auditoria da IGF deu ao Governo o que precisava para avançar com a extinção, o
que só se tornou possível, também, com a alteração à Lei-Quadro das Fundações,
que entrou em vigor a 1 de Janeiro de 2022. O Governo tem agora mais
ferramentas para fiscalizar e extinguir qualquer fundação que não cumpra o
propósito para o qual foi criada.
Esta alteração à lei
foi defendida, na generalidade, na Assembleia da República pelo secretário de
Estado da Presidência de Conselho de Ministros, a 7 de Julho de 2021. Sem votos
contra, teve o sim do PS, PSD, PCP, PAN, PEV e as abstenções do BE, CDS-PP,
Chega, IL, e as deputadas não-inscritas Cristina Rodrigues e Joacine Katar
Moreira.

