Depois de ter saído da Namíbia no final de Março, Henrique
Afonso rumou até ao Brasil numa viagem que durou 26 dias. Quando chegou a
terras de Vera Cruz a experiência não correu como queria por força da situação pandémica do país sul-americano que fechou literalmente a porta de entrada ao madeirense que está a dar
a volta ao Mundo num veleiro há mais de dois anos.

“Não me deixaram entrar porque os portos estão fechados
devido à situação pandémica. Tive de ficar ancorado em Recife - onde acabei
inclusivamente por ficar preso num banco de areia - e, entretanto, saí e fui
para Paraíba, em Jacaré. Aí fiquei novamente ancorado”, recorda ao DIÁRIO o velejador que já está nos Açores, na
ilha do Faial, após uma viagem que demorou 40 dias a concluir.

A trajectória desta última etapa da viagem de Henrique Afonso.
A trajectória desta última etapa da viagem de Henrique Afonso.

Ainda no Brasil, com problemas na hélice e no motor, o ‘Pirata’ conseguiu
arranjar ajuda sem poder ir a terra. Um mecânico pediu documentação às
autoridades de saúde brasileiras no sentido de obter autorização para reparar os
problemas no veleiro, que acabou por ficar arranjado.

No dia 1 de Maio decidiu finalmente sair da América do Sul rumo a casa e até agradeceu o compasso
de espera para apanhar bom tempo e subir rumo aos Açores.

“Foi uma viagem maravilhosa que durou 40 dias só que tive a
infelicidade de apanhar pouco vento”, lamentou, recordando um dos momentos mais marcantes desta viagem,
quando “estava parado com as velas no ar e o mar era como azeite”.

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“Passou um barco que me interpelou via rádio. Era o SD Victoria,
uma embarcação de apoio com bandeira britânica. Queriam saber de onde é que eu
vinha, para onde é que eu ia e o que é que fazia ali. Expliquei que estava a
seguir rumo aos Açores, que estou a dar a volta ao Mundo e que não tinha combustível
nem vento para levantar o cabelo”, explicou o madeirense que comanda um veleiro capaz
de encher até 40 litros.

Estava extremamente relaxado e nem pedi nada. Passados alguns minutos eles ligaram
novamente. Perguntaram outra vez se eu não tinha diesel e eu voltei a dizer que
não. Eu não tinha pressa. Estava relaxado, porque voltava a casa. Eles acabaram
por me oferecer combustível. Deram a volta, pararam e passámos os jerricans através de um cabo, numa manobra maravilhosa.
— Henrique Afonso

Num desses momentos, um dos tripulantes, que "parecia o chefe
da cozinha", perguntou se Henrique Afonso estaria bem apetrechado de comida para o resto da viagem.

"Estava tão emocionado com o
gesto que naquele momento nem reflecti e disse que estava tudo bem. Era aquele
barco ali, a Sofia do Mar e um pôr-do-sol magnífico naquele momento", recorda até com algum saudosismo.

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No dia a seguir fui fazer o pequeno-almoço
e quando comecei a ver… já não tinha muita comida. Por que não pedi comida a
eles? Continuei viagem e tive de começar a racionar. Só comia arroz com cebola
e esparguete com cebola.
— Henrique Afonso

Agora em terra e já com os devidos acompanhamentos para quando decide cozinhar arroz ou esparguete, o 'Pirata' diz que foi recebido "não como um rei ou um herói
mas como o Henrique Afonso". Da ilha do Faial o madeirense vai depois partir para a Terceira e aproveitar um pouco da estadia antes de
rumar à Madeira, onde irá concluir esta verdadeira epopeia.

O madeirense, que já falou à RTP-Açores, explicou que à chegada teve de ficar ancorado "como todos" os velejadores devido às restrições impostas pelas autoridades de saúde regionais.

No dia seguinte à chegada fez um teste, que deu negativo. Henrique recebeu o resultado com muita naturalidade e humor, isto porque diz que não estudou e o resultado seria óbvio após tanto tempo em alto mar. "Há montes de barcos à espera do teste, tal como eu", evidenciou.

Poderá acompanhar todas as aventuras de Henrique Afonso na sua página de Facebook, rede social onde conta actualmente com mais de 46 mil seguidores.