Os pescadores não vão deixar de pescar gata, não porque
queiram, mas porque é impossível nos moldes actuais não a pescar quando andam na
faina da espada e não consideram ser razoável a decisão da Comissão Europeia de
proibir a captura, transporte e descarga, uma vez que o peixe é pescado entre
600 a 800 metros de profundidade e quando chega à superfície está morto. “Jogar
fora é triste”, diz Alexandre Rodrigues, armador de Câmara de Lobos. “É triste
jogar fora um peixe que vem do mar para a rua já morto”.

O pescador com uma larga experiência argumenta que, se não
permitem vender em lota, pelo menos deixem os pescadores fazerem à sua maneira,
usá-la como isco ou levar para casa para as famílias. Esclarece que não há
outro sistema para pescar a espada disponível que evite que a gata morda o anzol
a tanta profundidade. “O aparelho vai para a água, o que está lá no fundo, se
tiver vontade de comer, come”, desabafa. “Não há maneira de evitar apanhar esse
peixe, nem a gente, nem em parte nenhuma do mundo inteiro”.

O armador acredita que a decisão partiu de quem não tem
conhecimento. E diz que na pesca de rede, a meia-água, é que os peixes chegam
vivos na rede e podem ser escolhidos e as espécies protegidas devolvidas ao
mar. A pressão na subida é tanta na pesca da espada, que o peixe não resiste e
morre sempre.

Este é no entender de muitos um retrocesso no processo que
não beneficia nem os homens do mar, nem a espécie, que vai continuar a ser
capturada involuntariamente. O fim é que será diferente, uma vez que não pode
ser tida a bordo das embarcações. Será devolvida ao mar para ser consumida pelas
gaivotas, diz o pescador. “Vai andar a boiar em cima de água. Depois de morta
ela não vai para o fundo, ela fica em cima de água a boiar, as ‘gavinas’
começam a picar até dar fim do peixe”. “Eu acho isso injusto, acho isso mal.”

Nesta fase Alexandre Rodrigues conta que não têm vindo muitas
gatas nos anzóis. “As gatas - a gente chama xaras -, as xaras parece que ouvem
estas confusões, desaparecem”. Num lance, revela o armador, podem vir 10 a 12,
em outras ocasiões 15 a 20, no meio de 30 a 40 espadas, 50 a 60. “Depende”.

Além desta espécie de tubarão de profundidade também por
vezes vêm outras espécies, como o espadarte ou mesmo um atum, que vive muitos
metros mais acima, é apanhado quando o aparelho está a ‘correr’.

O pescador confessa que há muita procura pela gata, também
chamada sapata e bacalhau de Câmara de Lobos, por ser branco e vendido seco. “As
pessoas adoram esse peixe”. À pergunta se os pescadores vão tentar contar a proibição,
não acredita. “Temos de cumprir com a lei da União Europeia, a gente já tem
medo e cada vez está pior. Se a gente trouxer um peixinho desses para terra sem
ter ordem, apanha uma multa. É somos capazes de ficar sem a licença de pesca”. “Chega
a um tempo que temos de fazer como eles querem: é jogar fora. Não se pode
arriscar”.

Alexandre Rodrigues assume que deitar a gata fora vai
representar prejuízo para os pescadores, que contavam com esse rendimento para
cobrir alguns custos da pesca. “É prejuízo para a gente, que não se ganha dinheiro,
não se ganha nada. E é um peixe que já vem preso, sempre dava para safar, para
pagar o isco ou pagar o gasóleo, ou a comida.”

O proprietário revela que a fiscalização tem sido mais
apertada no cais, que os inspectores inclusive entram dentro do barco. “Não vão
aos camarotes por sorte”, comentou. “Até à cozinha com olho-de-boi eles iam
para ver se estava suja ou se estava limpa. Mas não é. É para ver se tinha
alguma coisa lá de peixe”. “Agora é que não se pode levar um peixe em modos
para casa, isto é um absurdo”, terminou.