Para traçar este retrato socorremo-nos, fundamentalmente, do excelente trabalho de recolha efetuado por Rui Magno Pinto, em particular para o Dicionário Enciclopédico da Madeira. A nossa história começa, assim, em 1832, quando a pequena Júlia, contando então 7 anos, parte com a família para um Grand Tour por vários países europeus, vindo a estabelecer-se em Itália. Aos 11 anos encontramo-la pela primeira vez ligada à música: frequentava então aulas de canto em Roma, provavelmente com Carolina de Santis, sócia agregada da Accademia Nazionale di Santa Cecilia. Em 1840 a família muda-se para Genebra, e Júlia de França Neto, já adolescente, prossegue o ensino musical no Conservatório de música daquela cidade, estudando piano com Julie Raffard, canto com Francisco Bonoldi e harmonia com Nathan Bloc, que dirigiu daquele estabelecimento de ensino entre 1835 e 1849. Após um percurso académico sucessivamente condecorado naquela instituição, terá obtido, em 1846, os primeiros prémios nas disciplinas de Piano e Canto, tendo participado na apresentação pública anual dos alunos do Conservatório de Música de Genebra, realizada a 8 de setembro de 1845, com a apresentação da “Chanson du Saule” da ópera Otelo, de Gioacchino Rossini, sendo então reconhecida pelo seu excelente método de canto. Estreia-se no ano seguinte, num concerto organizado por Bonoldi, interpretando uma ária da ópera Lucia di Lammermoor, de Gaetano Donizetti. Em 1849 teria já concluído o curso, uma vez que neste ano o seu nome já não consta da documentação do Conservatório de Genebra.
Anos mais tarde encontramo-la em Paris, prosseguiu a sua formação musical, a título particular, tendo por mestres Jean-Antoine-Just Géraldy, baixo e compositor, Fiocchi, cantor e professor formado no método do castrato Girolamo Crescentini, e Caçares, com quem terá aprendido repertório musical espanhol e, eventualmente, guitarra. Participa nesta cidade como intérprete em vários saraus privados, organizados por senhoras da aristocracia parisiense, em solenidades sacras e em eventos de beneficência. Na conhecida estância de Inverno de Pau, nos Pirinéus Atlânticos, que meio século mais tarde viria a ser frequentada, também, pela escritora Luzia, que aí escreve parte da sua obra, canta num concerto organizado pelo violinista Louis Eller, então sediado naquela cidade. Apresenta-se igualmente em diversas récitas da Société Philarmonique de Tarbes. O seu último concerto em França, ao que tudo indica, terá ocorrido a 10 de junho de 1854, em Saint-Germain-en-Laye, tendo então interpretado dois excertos de óperas de Rossini, a cavatina “Una voce poco fa”, do Barbeiro de Sevilha, e o rondó “Nacqui all alfano e al pianto” de La Cenerontela - A Cinderela - – assim como um dueto com o barítono Morelli.
A família terá depois residido em Lisboa, no Palácio do Marquês de Sá da Bandeira, às Picoas. Durante a permanência na capital, Júlia de França Neto ter-se-á apresentado frequentemente em iniciativas musicais privadas e semipúblicas do 2.º conde de Farrobo, Joaquim Pedro Quintela, nas quais terá privado com D. Fernando II. Joaquim Pedro Quintela, antepassado ou tio do “Gato Fedorento” Zé Diogo Quintela, viria a ser governador civil do Funchal entre 1860 e 1862, tendo nessa época Júlia de França Neto co-organizado com a condessa vários concertos beneméritos no Funchal, no Palácio de São Lourenço.

Em 1854 a família regressa à Madeira, encontrando um arquipélago madeirense profundamente assolado por uma crise agrícola e comercial, agravada pela devastação vinícola provocada pela mangra da vinha, por intempéries, agravadas depois pelas epidemias de cólera e febre-amarela. Tocada pela miséria que afetava os mais pobres, os órfãos e os enfermos, Júlia de França Neto organiza uma série de concertos de beneficência, vindo a realizar dez récitas entre 1854 e 1861, participando ainda noutros eventos criados com a mesma finalidade. Os concertos decorrem na Escola Lancasteriana, gerida pelas senhoras Phelps, no salão da Escola Central e nas salas do Palácio de São Lourenço. Os lucros destas récitas foram destinados às instituições de beneficência madeirenses, como o Asilo de Mendicidade do Funchal, a Misericórdia e o Convento das Capuchas, tendo ainda organizado um concerto em fevereiro de 1858 na sala grande do palácio, cuja receita reverteu para auxílio das vítimas da febre-amarela em Lisboa. Nestes concertos, a cantora interpretou excertos de óperas de Gioacchino Rossini, Vincenzo Bellini, Gaetano Donizetti, e Giuseppe Verdi - incluíndo a “Ah Fors’è lui – Sempre libera” de La Traviata, a Ave Maria de Luigi Cherubini e vários boleros, nos quais se acompanhou à guitarra. Entre as artistas que então participaram nestas récitas, podemos citar Maria Paula Klinghöffer Rêgo, e, piano, harpa e machete, Carlota Cabral, no piano, Maria Virgínia de Sousa, piano, Júlia Araújo de Ornelas, harpa e piano, Carolina Dias de Almeida, canto, a própria condessa de Farrobo, no canto, a sra. Mascarenhas, harpa e Amélia Augusta (?) de Azevedo, no machete. Nos concertos colaboravam também outras mulheres notáveis da cultura madeirense, como Matilde Sauvayre da Câmara, e outras notáveis beneméritas, como Ester Leonor Ferraz, Palmira Lomelino Pereira e Eugénia Rêgo Pereira, as quais, com o seu préstimo, perpetuaram o modelo de benefício musical e artístico de caridade até à segunda metade do séc. XX.
A 20 de junho de 1864, parte para Lisboa, vindo a apresentar-se como cantora lírica naquela cidade, frequentando as soirées da sociedade lisboeta, entre as quais as organizadas pelo 7.º marquês da Fronteira, convivendo e granjeando a admiração dos reis D. Fernando e D. Luís, tidos como grandes apreciadores do seu talento musical. Em 1866 já se encontrava na Madeira, participando a 27 de janeiro num concerto de beneficência destinado ao Asilo de Mendicidade e Órfãos, onde canta com o virtuoso violinista Agostino Robbio os duetos “Per piacer alla signora” da ópera O Turco em Itália, de Rossini, e o “Grand Dueto” da ópera L’Elisire de Amore, de Donizetti. Em janeiro de 1869, toma parte, juntamente com Platão de Vakcel, que a celebra como “glória musical da Madeira e um dos talentos que mais honravam Portugal”, em dois concertos em benefício ao Asilo de Mendicidade e Órfãos, por pedido da própria instituição. A 18 de maio de 1870, integra o elenco que apresentou a comédia La Nièce no Teatro Esperança, no espetáculo em benefício do Asilo de Mendicidade. Aos seus concertos no Funchal assistiram várias figuras da realeza europeia, entre as quais a duquesa de Bragança, o futuro rei D. Luís, então príncipe da Beira, a imperatriz Elizabeth da Áustria, a célebre Sissi, o arquiduque Maximiliano, futuro imperador do México, assim como a sua infeliz esposa, Carlota da Bélgica. Embora não se encontrem referências à sua atividade musical em eventos públicos após esta data, terá continuado a realizar saraus artísticos na sua residência.
Júlia de França Neto foi muito elogiada na imprensa parisiense e madeirense pela sua capacidade vocal notável e pelo seu conhecimento da arte do canto, que a colocava “entre os artistas da bela escola”. O seu extenso âmbito vocal, e a aptidão para a execução de obras musicais para soprano ou contralto, Explicam-se pelo uso de uma técnica particular de canto, ainda em voga no século XIX, assente no recurso à alternância entre timbres e tessituras. Júlia de França Neto foi, assim, capaz de interpretar tanto como soprano, como como meio-soprano/contralto, possibilitando-lhe a execução de excertos célebres do repertório operático, de outro modo inacessíveis às audiências madeirenses. Na fase final da sua carreira musical, ter-se-á notabilizado como contralto, por um lado devido ao abaixamento da tessitura vocal natural em cantoras daquela idade, e, por outro, da introdução em Portugal de transformações na prática e pedagogia do canto lírico, que favoreciam registos mais robustos e dramáticos da voz.
Júlia de França Neto notabilizou-se, ainda, como produtora vinícola e agrícola, com propriedades em Câmara de Lobos, no Estreito, Quinta Grande, Campanário, São Martinho e Santo António, no Funchal, na sua maioria por si colonizadas, pelos seus parceiros agrícolas e pelos herdeiros destes últimos. Entre as suas propriedades destacam-se a Fajã dos Padres e o calhau da Lapa, no Campanário, e a Quinta do Salão, no Estreito de Câmara de Lobos. Em todas elas Júlia de França Neto terá incentivado eficientemente o cultivo de cana-de-açúcar, de verduras e árvores de fruto, e a produção de vinho. Foi ainda a responsável, em 1892, pelo restauro da capela dos Anjos, nos Canhas, então sua propriedade.

Faleceu a 14 de maio de 1903, aos 77 anos, na sua residência à rua dos Netos, de hemorragia cerebral, vindo a ser sepultada no antigo cemitério das Angústias, na parte superior do atual Parque de Santa Catarina.
