Dois ex-ministros da Saúde, Adalberto Campos Fernandes e Luís
Filipe Pereira, admitiram hoje a utilidade de um passaporte de vacinação do
novo coronavírus para permitir a retoma gradual do turismo e da atividade
económica.

"A ideia de um certificado digital pode ser uma via expedita
para, gradualmente, retomarmos não só a atividade aérea, mas também do turismo,
através de `clusters´ que se vão libertando", referiu Adalberto Campos
Fernandes, que falava num debate promovido pelo Hospital do Futuro, um fórum
para promover a reflexão e o debate estratégico no setor da saúde.

Segundo o antigo governante, este tipo de passaporte tem de ser
implementado em conjugação com uma "política mais assertiva e mais
inteligentemente estratégica de testes" de despiste da covid-19.

"Nós não usámos até hoje, infelizmente, a potencialidade toda
que os testes nos dão", disse Adalberto Campos Fernandes, para quem a
"realização inteligente de testes" associada à certificação da
vacinação podem permitir "ir abrindo a economia, evitando que a situação
se complique mais do que já está".

O ex-ministro defendeu ainda que Portugal não pode ter um
"quarto confinamento", razão pela qual março terá de ser um "mês
de nervos de aço", face à necessidade de manter as restrições iniciadas em
janeiro "por mais algum tempo" para se garantir que a transmissão do
vírus "baixa para níveis muito baixos".

Para Luís Filipe Pereira, perante as muitas incertezas que ainda
persistem sobre a evolução da pandemia e da vacinação, a criação de um
passaporte sanitário pode constituir um instrumento a ter em conta para
impulsionar a retoma inicial da economia.

"Há prós e contras, como em tudo na vida, mas se queremos
alguma retoma, se queremos alguma pressão sobre aqueles que não se querem
vacinar, de facto, o passaporte é um meio que pode ser importante para alguma
retoma inicial", referiu o antigo ministro da Saúde.

"Tudo visto e ponderado, diria que a questão do passaporte
sanitário é realidade que já está em curso", disse.

A chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou hoje que os parceiros
europeus vão instaurar "para o verão" um passaporte de vacinação do
novo coronavírus que poderá tornar "possíveis" as viagens no interior
do espaço da União Europeia (EU).

Em conferência de imprensa que se seguiu à reunião virtual de
líderes da UE, a chanceler explicou que todos os países da União estão de
acordo com o desenvolvimento de um sistema que permita compatibilizar os
diversos passaportes de vacinação que estão a ser elaborados pelos 27
Estados-membros.

A Comissão Europeia (CE) possui agora três meses para definir as
condições técnicas deste sistema, e os líderes admitem que esteja operativo
"nos próximos meses" e "para o verão", segundo a chanceler.

No debate de hoje, o Secretário Regional da Saúde e Proteção Civil
da Madeira, Pedro Ramos, defendeu que o passaporte sanitário para as regiões
autónomas e periféricas é "extremamente importante" dada a
importância do turismo na economia.

"Na Madeira, 27% do PIB está relacionado com a área do
turismo", sublinhou Pedro Ramos, ao adiantar que, desde 01 de julho, já
chegaram ao arquipélago mais 300 mil pessoas, uma movimentação que fez com que
a região se preparasse para controlar a covid-19.

Neste debate, Adalberto Campos Fernandes defendeu ainda que a
Agência Europeia do Medicamento (EMA) devia "tomar rapidamente uma
posição" sobre o alargamento do intervalo entre a primeira e a segunda
doses das vacinas que estão sendo já administradas.

"Não devem ser os governos ou a política a tomar esta
decisão, nem mesmo as agências nacionais regulatórias. Deveria haver uma
posição clara e cientificamente baseada da agência europeia", disse o
ex-ministro, para quem a EMA não deveria ainda recusar a avaliação, se ela vier
a ser submetida, de outras vacinas de fora do espaço comunitário, caso da russa
Sputnik V.

"Em tempos de guerra não se limpam armas e, face às
dificuldades logísticas que temos tido, temos de olhar para o mundo numa
perspetiva global e fazer tudo para salvaguardar a vida dos nossos
concidadãos", preconizou.

Este foi um debate preparatório da Cimeira das Regiões de Saúde,
que se realiza no final de abril com a participação de várias personalidades do
setor da Saúde.