Enquanto Joseph se embrenhou de imediato nos negócios da família, Elisabeth foi tendo filhos, num total de onze, passando os dias ocupada com a educação das crianças, a gestão da casa e do pequeno hotel que ali tinham instalado, sempre bem assessorada por um exército de criados, ao mesmo tempo que mantinha uma intensa vida social, fazendo e recebendo visitas, dinamizando serões e participando em diversas atividades de beneficência do Funchal, como o Asilo de Mendicidade e a Misericórdia do Funchal.

A família possuía uma propriedade no Monte, a Quinta do Prazer - atual Monte Palace - usada sobretudo para veraneio, na qual promoviam convívios e diversões com algumas das mais importantes famílias madeirenses da época, como os Blandy, os Stoddart, os Gordon e os Oliveiras.

Apesar das vidas atarefadas, o casal Phelps comprometera-se profundamente com o desenvolvimento e melhoramento das condições de vida dos madeirenses, em particular os mais pobres, levando a cabo, para além das já referidas atividades benemerentes, uma obra de grande relevo no campo da educação: a escola Lancastriana para rapazes e raparigas, dirigidas respetivamente por Joseph e Elizabeth. A escola Lancasteriana aplicava o método criado por Joseph Lancaster em Inglaterra, consistindo, de forma simplificada, em ensinar um conjunto de alunos, os quais depois se dedicavam a educar os mais jovens, e assim sucessivamente, vindo a permitir o acesso a um nível de conhecimentos até então impensável, sobretudo para as raparigas no Funchal.

A escola feminina, cujos estatutos chegaram aos nossos dias, implicava o cumprimento de determinadas regras: as meninas tinham de vir limpas, com o cabelo cortado e ser pontuais. O período de estudo decorria entre as 9 e as 12 horas da manhã, e das 14h às 17h da tarde, com um currículo composto por atividades que para além dos inevitáveis ler, escrever e contar, englobando também as artes da costura e do bordado. Para financiar a instituição obtiveram contributos de outras figuras importantes da comunidade estrangeira residente ou estante no Funchal, como a rainha Adelaide, os duques de Saxe-Weimar e o Duque de Leuchtenberg, o qual ofereceu uma biblioteca de 100 volumes. Elisabeth Phelps manteve-se à frente da escola por mais de 40 anos, sendo depois substituída por uma comissão que incluia o bispo e a condessa do Farrobo. Fora da gestão de Elizabeth Phelps, a escola acabaria, no entanto, por encerrar, devido ao agravamento dos problemas financeiros.

Antiga residência Phelps, de fins do século XVIII, no atual n.º 6 da rua do Carmo, na qual também geriam um pequeno hotel  nas décadas de 1830 e 1840, no qual esteve instalada a família de Emily Shore (1819–1839), outra jovem diarista que escreveu sobre o Funchal (Atribuição: Paulo Perneta / Wikimedia CC-BY-SA 4.0)
Antiga residência Phelps, de fins do século XVIII, no atual n.º 6 da rua do Carmo, na qual também geriam um pequeno hotel nas décadas de 1830 e 1840, no qual esteve instalada a família de Emily Shore (1819–1839), outra jovem diarista que escreveu sobre o Funchal (Atribuição: Paulo Perneta / Wikimedia CC-BY-SA 4.0)

A filha mais velha de Elisabeth Phelps, também ela Elisabeth, a quem chamavam Bella, provavelmente para a distinguir da mãe, viria a ser de grande relevância para a Madeira, na medida em que se interessou pelo bordado que então se fazia na Madeira, decidindo abrir uma escola com o objetivo de cativar as jovens para a sua prática.

Pela correspondência familiar, sabemos que Bella mandou para Londres amostras de bordado, ao cuidado de uma irmã que ali residia e tinha contactos com a Kensington School of Needlework, de quem possivelmente recebeu alguma acessoria. O resultado desta iniciativa foi depois apresentado na exposição de produtos madeirenses realizada em 1850 no Palácio de São Lourenço, sendo os bordados tão bem recebidos que Bella resolveu mostrá-los na Grande Exposição Mundial de Londres de 1851, marcando o momento a partir do qual o bordado madeirense viria a alcançar os mercados estrangeiros, tornando-se uma das imagens de marca da ilha.

A irmã de Bella, Mary, logo depois em idade, legou também ela à Madeira um testemunho raro e precioso que permite conhecer o quotidiano de uma família inglesa no Funchal, dos hábitos da comunidade britânica do tempo, do contraste que faziam com as práticas da sociedade local, bem como a aspetos dessa vida social, como os bailes, concertos, excursões, passeios, festas e corridas.

O documento que contém toda esta informação é o Diário de Mary Phelps, iniciado em 1839 e estendendo-se até 1843, dando acesso não só a toda a informação já referida, como às atividades quotidianas da autora que, aos 17 anos, idade com que fez o primeiro registo, se via encarregada de tomar conta dos irmãos mais novos, nas ausências da mãe para Londres, servindo-lhes inclusivamente de professora de música. Pelo mesmo diário se observa igualmente que a educação das crianças Phelps incluía, ainda, o francês e o alemão, sendo o pai o responsável pela aprendizagem do português.

Mary refere-se também à beleza natural da Madeira, que a deslumbra, não se eximindo, no entanto, de criticar algumas ruas do Funchal, mal calcetadas e sujas, ou a falta de variedade de produtos no comércio local, o que, registe-se, abre uma janela inesperada e colorida para a vivência inglesa na Madeira e para a forma como se relacionava com a sociedade local, da qual também descreve os hábitos, o que lhe confere uma importância singular, na medida em que é um testemunho único para a análise da Madeira do seu tempo.

Muito agradeço à Dra Cláudia Faria, que se tem dedicado ao estudo desta família, e de cujo conhecimento me subsidiei.
— Cristina Trindade