“A vida cristã é marcada
pela luta”. Foi desta forma que o Bispo do Funchal começou a homilia deste sábado, feriado de 15 de Agosto, na missa solene da Festa de Nossa Senhora do
Monte, para “incutir coragem aos cristãos e às suas comunidades”.
Depois de rezar uma
oração, às 11 horas, para agradecer a Nossa Senhora do Monte por não ter
acontecido, até então, nenhuma morte por covid-19 na Região, altura em que
também homenageou o trabalho dos profissionais de saúde e de segurança, os
governantes e os decisores, D. Nuno Brás escolheu a história da travessia de
Maria no deserto para comparar essa prova – que Maria ultrapassou – com a que o
mundo enfrenta agora devido à pandemia.
“Vivemos, todos nós, neste
mesmo momento, um terrível tempo de deserto. Começou mesmo por ser um tempo de
confinamento, de silêncio, de ruas literalmente desertas e abandonadas”
A pandemia é,
naturalmente, um tema incontornável da actualidade e o Bispo do Funchal recorda
a história da Virgem Maria “lutadora”, “mulher incansável que, no deserto,
derrota o dragão”.
O deserto, explica o
Bispo do Funchal, é “o lugar da prova, da tentação”. E Maria é “o sinal de que
é possível vencer a provação”. Mas, diz D. Nuno Brás, o deserto é, por outro
lado, “o lugar onde se revela a fidelidade divina” e “onde se manifestam as
‘impossíveis possibilidades’ de Deus, a sua ternura protectora, a fidelidade
com que se mostra o seu amor. É o lugar do milagre”. E é também o “lugar da
escuta da Palavra”.
A história que D. Nuno
Brás conta na missa solene do Monte que este ano, devido à covid-19, não se
seguirá da tradicional procissão, serve para lembrar que o “nosso tempo
continua a ser um tempo de luta entre Deus e o que procura aniquilar o homem”,
em que a “vida humana se pressente desamparada e frágil perante um inimigo invisível
e traiçoeiro – um dragão invisível mas não menos apocalíptico”.
“É este um deserto que
sussurra aos nossos ouvidos que Deus não existe ou que podemos passar sem Ele,
e que devemos também ignorar ou desconfiar do próximo — ignorar que nos
encontramos todos na mesma barca, como recordou o Papa Francisco”.
O bispo releva que “este é, também, um deserto onde, de um
modo particular, muitos sentiram a sede de Deus, a necessidade de um sentido
para a existência, a procura do rosto de Alguém acima do mundo
passageiro e frágil” e em que “muitos perceberam que Deus não está adormecido
mas é antes um Deus próximo: próximo no rosto do próximo; próximo no rosto de
quem partilhou e partilha connosco estas horas de incerteza; próximo no
trabalho daqueles que nos hospitais e nos outros serviços do que se
convencionou chamar a ‘linha da frente’ cuidam de todos, não raras vezes
arriscando a própria vida”.
Uma proximidade que D.
Nuno Brás acredita que os madeirenses e porto-santenses têm razões para
reconhecer como “divina no meio daquilo que foram os desertos destes meses”. É
que este tempo não deixou de ser “tentação, prova, sede. Mas não deixou,
igualmente, de ser marcado pelo Sinal da Mulher, de Nossa Senhora – de Nossa
Senhora do Monte”, reforçou.
“No tempo do
confinamento, há cinco meses atrás, entregámo-nos, uma vez mais, como povo de
Deus, nas mãos maternas de Nossa Senhora do Monte. E creio que, ao longo destes
meses, Ela foi, uma vez mais, um sinal para nós: passámos todo este tempo sem
qualquer morte entre os habitantes das nossas ilhas”, afirmou D. Nuno Brás, sem
excluir que elas possam acontecer no futuro ou “uma qualquer outra desgraça
causada ainda por esta pandemia que teima em não desaparecer”.
É com agradecimentos
“à intercessão de Nossa Senhora do Monte” que o Bispo do Funchal termina a
homilia do 15 de Agosto 2020.

