O procurador-geral da República do Brasil pediu hoje a audição de ministros e o registo de reuniões, para apurar acusações de alegada tentativa de interferência do Presidente, Jair Bolsonaro, na Polícia Federal, feitas pelo ex-ministro Sergio Moro.

No requerimento enviado ao juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello, Augusto Aras pediu uma série de diligências para apurar as acusações feitas pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro, em 24 de abril, entre elas, o testemunho de três governantes do executivo de Bolsonaro e de seis delegados da Polícia Federal (PF), e a realização de perícias.

Aras entendeu ser necessário ouvir os ministros da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, Augusto Heleno, e da Casa Civil, Braga Netto, “para o esclarecimento dos factos”, assim como a deputada federal Carla Zambelli, aliada de Bolsonaro e mencionada nas alegadas provas apresentadas por Sergio Moro.

Foi também pedida a audição dos delegados da PF Maurício Valeixo, Ricardo Saadi, Carlos Sousa, Alexandre Saraiva, Rodrigo Teixeira e Alexandre Ramagem Rodrigues, para que prestem informações acerca de “eventual patrocínio, direto ou indireto, de interesses privados do Presidente da República perante o Departamento de Polícia Federal, visando o provimento de cargos em comissão e a exoneração de seus ocupantes”.

O procurador-geral pediu ainda ao STF a cópia do vídeo da reunião realizada entre Bolsonaro, o vice-presidente, Hamilton Mourão, ministros e presidentes de bancos públicos no passado dia 22 de abril, assim como “comprovativo de autoria das assinaturas da exoneração de Maurício Valeixo do cargo de diretor-geral da PF”, além do “eventual documento com pedido de exoneração”, alegadamente encaminhada por Valeixo ao mandatário.

Em causa estão as declarações feitas por Sergio Moro, em 24 de abril, que pediu a demissão do cargo ministerial, acusando o Presidente brasileiro de estar a fazer “interferência política na Polícia Federal”, na sequência da demissão do ex-chefe daquela instituição Maurício Valeixo.

“O Presidente disse-me, mais de uma vez, expressamente, que ele queria ter uma pessoa do contacto pessoal dele [para quem] ele pudesse ligar, [de quem] ele pudesse colher informações, [com quem] ele pudesse colher relatórios de inteligência. Seja o diretor [da Polícia Federal], seja um superintendente”, declarou Moro na ocasião.

Segundo Moro, Bolsonaro queria interferir na Polícia Federal porque estava preocupado com investigações em curso no STF, que poderiam envolver os seus filhos ou aliados políticos.

Horas depois da demissão do ex-juiz, Bolsonaro negou as acusações, mas acabou por admitir que, em pelo menos três ocasiões, procurou obter mais informações acerca de investigações em curso: acerca do atentado que sofreu em 2018, sobre o caso que envolvia a presença dos acusados de matar a vereadora Marielle no seu condomínio e sobre uma eventual relação do seu quarto filho com a filha de um dos acusados do assassinato da vereadora.

A Polícia Federal conduz uma investigação sobre a criação e disseminação de notícias falsas nas redes sociais, supostamente publicadas por grupos ligados ao vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, e outra contra o senador Flavio Bolsonaro por branqueamento de capitais quando era deputado no Rio de Janeiro, ambos filhos do chefe de Estado.

Na ocasião, Bolsonaro disse que foi o Maurício Valeixo a pedir demissão do cargo de diretor da PF, alegando “cansaço”.

Perante as acusações do ex-juiz e anterior ministro, o procurador-geral do Brasil pediu ainda uma perícia ao telemóvel de Moro, visando obter “dados informáticos”, “assim como um relatório de análise das mensagens de texto e áudio, imagens e vídeos”.

Para todos os depoimentos solicitados, Augusto Aras indicou um prazo de cinco dias a partir da intimação dos citados.

No sábado, Sergio Moro começou a testemunhar contra Bolsonaro, na Superintendência da Polícia Federal de Curitiba, cidade onde liderou, como magistrado, a operação anticorrupção Lava Jato e condenou vários empresários e políticos, incluindo o ex-Presidente do país Luiz Inácio Lula da Silva.