Se não me falha a memória, nos últimos 48 anos, não tenho ideia de, estando de perfeita saúde física (porque em relação à mental, já tenho as minhas dúvidas), ter ficado duas semanas inteiras sem sair de casa! Mas aconteceu. E acredite o leitor, nem eu pensei ser possível.

Se bem que os tempos não estarão para brincadeiras, não posso deixar de referir que estes dias passaram relativamente rápido. Fosse porque pura e simplesmente, interiorizei que desta vez, não teria mesmo escapatória, ou porque tive medo, ou ainda, porque a situação não dava azo a aventuras. Mais não seja porque carrego comigo as cicatrizes, das inúmeras vezes que acabei no hospital, à conta de levar ao limite aquela singela actividade que dá pelo nome de windsurf. E como já me conheço e sei que perdi a capacidade de velejar tranquilamente, mais vale ficar quieto.

Neste período aconteceram coisas muito interessantes. A mais chocante foi dar-me conta do tipo de vida que andava a levar. Nos últimos três anos, saí da Madeira a uma média de uma vez a cada quinzena. Sempre a correr de um lado para outro, sempre a sentir o tempo a fugir-me debaixo dos pés, sempre a sentir a insustentabilidade da vida que levava. Mas foi quando dei por mim parado a meio do trânsito na via rápida, levando 45 minutos para fazer um trajecto que, em condições normais, duraria 12 minutos, que me senti verdadeiramente encurralado. E depois veio a pandemia.

Na última década, habituei-me a trabalhar de casa. Por isso essa parte foi relativamente fácil de encarar. Mas ao longo destes dias, a minha mente foi se acalmando. Como se a poeira fosse, lenta mas inexoravelmente, assentando, revelando uma realidade muito mais nítida, clara, cristalina mesmo.

Quando tudo isto terminar, voltaremos à nossa vida tal como a conhecíamos? Até que ponto, aquilo que aprendemos nesta fase, não nos será útil no futuro? Poderemos substituir toda uma lógica de trabalho assente na presença física num determinado espaço, por algo assente em objectivos? E os nossos filhos, as crianças e jovens destas ilhas? Que ensinamentos retirarão? Continuaram a encarar a ida à escola da mesma forma? Como socializarão no futuro? Que perspectivas terão dos empregos do futuro?

Uma palavra final de apreço por todos aqueles que estão na linha da frente, a enfrentar algo invisível. Desde a primeira hora, um verdadeiro espírito de missão presente. E tantas decisões necessárias! Um bem hajam!