
A perceção sobre os fenómenos, as instituições, os outros e sobre nós próprios ... muitas vezes não corresponde à realidade (embora esta possa assumir diferentes “nuances”) e leva-nos a tomar decisões, da esfera privada à profissional, que estão desajustadas das nossas reais capacidades e potencialidades.
Numa sociedade de fachada, onde o embrulho vale mais que o conteúdo, é fácil confundir a perceção que temos com a realidade. Normalmente, a perceção é formada em função de alguns indicadores e dados que são parcelares e, na maioria das vezes, pouco rigorosos e precisos.
Contudo, infelizmente, isso não impede que, a partir de perceções parcelares se façam generalizações e se coloquem rótulos, nomeadamente, de competência/incompetência, honestidade/desonestidade, mérito/demérito ... Isto para não falar da maledicência, da inveja e da mentira descarada que parece estar a proliferar exponencialmente na sociedade digital.
As perceções são uma das fontes alimentadoras da “achologia” que, de forma negligente ou mesmo dolosa, é difundida, não só por leigos nas matérias em causa, mas também por muitos dos que têm “galões” de especialista.
Não é assim de estranhar que correntemente se vejam autênticos números de contorcionismo argumentativo, tentando desdizer o que tão doutamente tinha sido afirmado, ou então, com a maior desfaçatez se ignore o que se defendeu e se façam, de forma tão eloquente e apaixonada, afirmações contrárias.
A título de exemplo, certamente que todos nos recordamos, das opiniões dos “especialistas” antes e durante a crise financeira ou das afirmações que são feitas todos os anos sobre as equipas e treinadores, antes do início dos campeonatos, e acerca das potencialidades dos novos “Ronaldos”, que parecem despontar a cada esquina, etc.
Há quem viva em redomas, em grupos de “apaniguados”, alimentando os egos, dando palmadinhas nas costas e que por isso se têm em muito boa conta. Pelo contrário, há quem tenha elevado mérito, mas percecione sempre que os outros são melhores ...
Ora, o Desporto, quando bem orientado, pode ser um meio privilegiado para desenvolver um processo pedagógico que ajude a construir perceções que não estejam desfasadas da realidade. Isto porque, por exemplo, permite de uma forma lúdica e motivante, estimular a confrontação entre a perceção que se tem de si próprio, a perceção que os outros têm sobre nós e o real desempenho que é obtido. Não devemos esquecer que, dependendo do tipo de comportamento predominantemente solicitado, em cada modalidade desportiva, é possível, na maioria dos casos, mensurar a performance (ou parte dela) e assim confrontar a perceção com a realidade naquele momento (sim naquele momento, pois os processos são dinâmicos).
As opções que fazemos (não esquecer que o não optar já é uma opção) dizem muito sobre nós e são um dos melhores indicadores, não só sobre a perceção que temos sobre os outros e sobre o mundo, mas fundamentalmente no que concerne à forma como percecionamos as nossas capacidades, potencialidades e motivações em relação aos desafios a que permanentemente temos de dar resposta (ou preferimos ignorar...).
Quanto mais a perceção se aproximar da realidade, provavelmente menores serão os erros de “casting” e os “flops” que frequentemente ocorrem no exercício de alguns cargos e funções, uma vez que, uns nunca serão “escolhidos” e outros nunca aceitarão. Isto claro está não se aplica em muitos contextos e situações, nomeadamente quando existe ambição desmedida, compadrio enraizado ou indiferença generalizada... algo que infelizmente, segundo alguns indicadores, continua com uma tendência de crescimento ...