
Assim à primeira vista, particularmente numa sociedade como aquela em que vivemos, onde se privilegia o individualismo e a competição, a frase que dá título a este texto pode parecer um pouco piegas ou até de uma certa inocência. Desde muito cedo, ou melhor, desde que começamos a ter consciência da nossa existência, que se instala em nós, aquilo a que na teoria psicanalítica é chamado de ego. Este ego é conduzido pela lógica e racionalidade e é uma espécie de mediador entre o ser humano e o mundo exterior. E ao exercer essa função, torna-se responsável por criar a ilusão que somos uma entidade independente, separada do mundo exterior e consequentemente dos nossos semelhantes. Essa ilusão, reitere-se, intermediada pelo ego, é assim o resultado de uma interpretação do mundo fenoménico através do entendimento do sujeito cognoscente, contribuindo decisivamente para o nosso afastamento da unidade a que todos pertencemos, isto é, a natureza no seu conjunto. Mas a verdade é que, orgânica e espiritualmente, somos todos um. Para que se possa reconquistar a conexão à unidade de que fazemos parte, (re)adquirindo a compreensão da nossa indivisibilidade, torna-se necessária a interiorização de que a compaixão é uma das vias de negação da dualidade “tu e eu”, e a sua manifestação ocorre quando atingimos um nível de consciência que nos permite “ver” que fazemos parte de uma unidade, momento em que o outro passa a ser parte nossa, pois a nossa atenção deixa de estar focada no bem particular, fonte de egoísmo, e passa a incidir no bem coletivo, aquele que restaura e une o ser humano com os outros seres. A compaixão é o abdicar em troca de nada, sendo uma atitude amarrada na aspiração de que os outros seres se libertem do sofrimento e está vinculada ao compromisso, responsabilidade e respeito para com todos os seres sencientes, que tal como qualquer ser humano, procuram evitar a infelicidade. Outras dimensões de extrema importância e de acolhimento obrigatório, é não só aquela que nos revela que todos os seres sencientes são interdependentes, assim como não existência de uma realidade intrínseca dos fenómenos, pois a sua manifestação só se pode verificar por ligação a outro qualquer acontecimento. A adoção comprometida destas realidades, permitirá dar significado e materialização à frase que encabeça este texto, pois tornará evidente que o desafio da humanidade não será com certeza colocar a economia a funcionar, explorando os recursos naturais do planeta como se fossem infinitos, mesmo quando eles estão já em colapso. Ou contribuir para a existência de uma população abastada e outra indigente, ou ainda, possuir um sistema “educativo” que promove a competição. É de uma clareza cristalina que estas opções, entre muitas outras absurdas adotadas na atualidade, só podem ter como resultado, a desagregação, ou melhor, a desunião daquilo que é uno e que só pode resultar se essa condição não for corrompida. E encetar o caminho para a alteração, talvez nem seja muito difícil, bastando para tal que cada nação, entidade que deve zelar pelos seus, com particular destaque para os mais desfavorecidos, gradualmente se assuma como farol espiritual, começando a introduzir essa dimensão nos currículos escolares, declarando-a de importância nuclear. Olhando para trás, pode parecer patético, considerando o percurso percorrido pela humanidade. O certo é que por outra via, estamos a caminhar para lá, mas não da melhor maneira. Refiro-me ao movimento mundial atual contra as alterações climáticas. Embora a abordagem seja maioritariamente pela via do não esgotamento dos recursos para que eles sejam sustentáveis, podemos (devemos) optar pela via de declará-los património mundial espiritual, pois essa classificação aliada a outras medidas no mesmo sentido, retirar-lhe-ia a carga mercantil que, nocivamente, lhe continua associada. É uma oportunidade, sem qualquer dúvida, a aproveitar...