Gosto de governos de coligação, na exata medida em que abomino governos de maioria absoluta de um só partido. A democracia é o reino do compromisso, e nada melhor para fazer esquecer essa máxima do que entregar o poder todo a um partido só. Sabemos bem o que isso significou ao longo de demasiadas décadas de poder absoluto, sob a liderança de um iluminado que tudo sabia e em tudo mandava. Em tese, a necessidade de negociar acordos entre partidos diferentes, com agendas e prioridades distintas, cria um nível adicional de controlo interno no poder, obriga a ouvir o outro e tende a melhorar o exercício executivo. Repito, em tese - desde que nenhum partido venda as suas convicções em troca de um quinhão de poder. Ou seja, um governo de coligação vale a pena se nele existir verdadeira tensão. A tensão e a divergência interna, desde que limitadas, são boas. Mas essas vantagens perdem-se se tudo se limitar à distribuição de benesses e lugares, e um dos partidos “comprar” o outro com essa mercearia. Ao fim de cem dias, tenho a certeza de que a Madeira ganhou com o fim das maiorias absolutas, que deus as tenha. Mas está por provar que esta coligação seja mais do que a distribuição por dois do poder que antes era de um só.