Já foi assim em tempos que já lá vão!Ir à Missa era um acto solene que marcava um intervalo na labuta dos dias da semana.

E, por ser, por se considerar, um acto solene

(falo, obviamente, da realidade que conheço, que é a realidade da prática cristã, mais concretamente da realidade católica existente na maioria dos países do sul da Europa, já que nos mais a norte, com a Reforma Protestante, a forma como a prática dos cultos é encarada difere substancialmente daquela que é comum nos ritos católicos),

por uma questão de respeito, era escolhido o melhor que se tinha no guarda-fatos, no armário da roupa, quando, ao domingo, chegava a hora de ir à Igreja participar na celebração da Santa Missa.

Os homens punham o seu (melhor) fato, as Senhoras compunham a cabeça com um véu condizente com a roupa criteriosamente escolhida, as crianças calçavam os melhores sapatos e lá ia a Família toda prestar homenagem a Deus e a Cristo celebrados pelo Senhor Padre da paróquia.

A Família escolhia o melhor lugar possível, Mãe e Pai vigiando os filhos atentamente, pois como as famílias eram muitas vezes grandes havia uma tendência para que os mais jovens dessem, às vezes, asas à criatividade de um comportamento menos próprio para o lugar Sagrado onde se encontravam. E, entre cochichos repreendidos por um olhar mais severo do Pai ou de uma recomendação atenta da Mãe, lá os Filhos se comportavam com o respeito devido ao lugar sagrado onde se encontravam.

E rezavam, em conjunto, as orações

(os que as sabiam, os que as não sabiam murmuravam algo mais ou menos incompreensível a um ouvido mais atento, mas o suficiente para que a Mãe se sentisse satisfeita pelo comportamento do Filho)

que o Senhor Padre ia desfilando de acordo com os rituais ancestrais.

Chegava a hora da homilía e, qual intervalo de sessão, muitos dos homens saiam para o adro da Igreja para fumar um cigarro para entreter o tempo, até que a Mãe enviava (mandava) um dos Filhos chamar o Pai que a Missa recomeçava, e o mesmo se passava na hora da Comunhão que em tempos era distribuída depois do “ite, missa est” final.

Passaram os tempos, os ritos, ou melhor, a forma como os ritos foram re-interpretados depois do Concílio Vaticano II, tornaram a Celebração da Missa mais virada para os fiéis e menos para o sacerdote, que deixou de estar de costas voltadas para a audiência, encarando-a olhos nos olhos, dando mais força e uma interpretação diferente à Fé com que os fiéis devem encarar o que lhes é transmitido por Deus e por Jesus Cristo através do Padre celebrante.

Estas alterações mudaram também os hábitos de escolher a melhor roupa para se ir à Missa ao domingo (ou ao sábado), o que não significa que se vá de qualquer forma e feitio, obviamente. Mas já não existe aquela “obrigação” de pôr a melhor farpela, deixando lugar a que, com uma certa descontracção no vestir, a Fé seja encarada mais pelo sentir e menos mostrar(-se), passe a forma muito simplista utilizada para explicar porque o fato domingueiro caíu um pouco em desuso (os factores são, na realidade, muitos e de várias ordens, mas este serve para o que pretendo hoje).

Há, no entanto, ocasiões especiais, festas como a Páscoa ou o Natal, ou outra à qual damos um significado especial, nas quais podemos querer acrescentar à Fé com que vamos assistir a uma celebração especial, um fato, um vestido, um lenço especiais, a vontade de embelezar o que é visto para engrandecer o que não se vê mas que se sente – a Fé!

E é por isto mesmo que no próximo dia 5 de Outubro, dia de uma Festa muito especial, de uma festa da simplicidade, do conhecimento, da espiritualidade, da Fé, vou escolher o meu melhor fato de Fé, aquele que vou usar

(mesmo sem estar presente fisicamente, mesmo que só em espírito),

quando estiver a acompanhar

(e a rezar, tal como ele me pediu),

a Ordenação do Senhor Cardeal D. José Tolentino Mendonça.

Pode contar, Senhor Cardeal D. José, com as minhas Orações, para as quais usarei sempre os melhores fatos que a Fé me oferece, tal como se usavam os melhores fatos para ir à Missa de domingo em Família.