Existem “negociatas” em todas as áreas, embora muitas vezes convenha que sejam predominantemente associadas a certos nichos...

O mundo do futebol, pelo seu mediatismo, pelas “regras negociais muito particulares”, pela falta de transparência alicerçada num passado muito pouco abonatório, continua a ser uma das áreas onde se pode afirmar, sem qualquer demagogia, que as “negociatas” encontram terreno fértil para prosperar ...

Obviamente que esta perceção (muitas vezes confirmada na justiça) não tem idêntica expressão em todos os países e áreas geográficas, embora não nos possamos esquecer que, por mais regras e meios de controlo que se definam, o engenho e criatividade da “malandragem” (com e sem colarinho branco) é algo digno de registo. Pena é que esse esforço e talento não seja colocado ao serviço do bem comum ...

Em plena época de transferências futebolísticas fala-se de milhões como quem fala de tostões. Até parece existir um autêntico campeonato de transferências. Muitos adeptos seguem avidamente as notícias (muitas delas inventadas ou ao serviço de interesses clubísticos e de empresários) sobre os clubes pretensamente interessados em certos jogadores e os valores envolvidos. Em diferentes órgãos de comunicação social, sobre os mesmos jogadores, aparecem notícias totalmente contraditórias. De um dia para o outro, alguns desses órgãos, com a maior desfaçatez, noticiam precisamente o contrário do que tinham informado. No fundo, assiste-se a uma autêntica novela barata que é alimentada por todos aqueles que parecem gostar de ser enganados. Ou melhor, que aceita com a maior naturalidade que, no futebol, “o que é verdade hoje seja mentira amanhã”.

Assim, parece não constituir qualquer problema que, ano após ano, apesar dos passivos continuarem astronómicos, reiteradamente existam clubes que contratem jogadores que nunca chegam a jogar na equipa principal e são imediatamente emprestados (pretensamente para “rodar”), que outros sejam contratados como autênticas estrelas e depois nunca venham a confirmar as tão propaladas potencialidades, que existam vendas e contratações por valores que ninguém compreende, que exista uma espécie de circuito de “flops”, que os valores pagos em comissões sejam descomunais (possivelmente porque terão de ser derramados por muitas “capelas”) etc., etc.

No fundo, a forma como se aceita este estado de coisas acaba por ser um indicador da ausência de uma cultura de exigência e de transparência nos processos...

Ora, em educação os processos são longos e não se alteram este tipo de comportamentos de um dia para o outro, nem por decreto. É necessário que o processo pedagógico, do ambiente familiar ao sistema de ensino (do pré-escolar ao ensino superior) estimule e induza comportamentos que solicitem o pensamento crítico, a capacidade de problematizar, o não ter receio de fazer perguntas e exigir justificações, ou seja, comportamentos mais produtores que reprodutores.

Assim, a título de exemplo, os pais devem explicar e justificar as escolhas que fazem e as regras que existem na dinâmica familiar e não se devem refugiar em autoritarismos primários, do género “é assim porque eu quero” ... No sistema de ensino, exatamente o mesmo, ou seja as “dinâmicas” da escola e das aulas, os estilos de ensinos utilizados, os métodos e os critérios de avaliação... devem ser explicados e justificados em função dos objetivos que se querem alcançar e dos meios e tempo disponíveis e, sempre que possível, devem ser colocados à discussão e, eventualmente se essa discussão for produtiva, ter como consequência alterações ao que estava inicialmente previsto.

Quem tem medo de explicar e justificar? Possivelmente aqueles que não dominam a “sua arte” e aqueles que preferem viver de expedientes e “negociatas”.

Não podemos continuar a ter tantas “virgens ofendidas” sempre que alguém ousa perguntar: “Porquê?”.