Este ano decidimos entregar Medalhas de Mérito Municipal às pessoas comuns, mas cujo percurso de vida tem a grandiosidade de um quotidiano e de uma luta.

O habitual é lembrarem-se os grandes vultos, o que é perfeitamente legítimo, mas também as pequenas vaidades, os inconfessados e inconfessáveis interesses, a agenda política do momento.

A nossa decisão de homenagear a gente comum, mas grande, não faz comendadores, mas também não nos deixa na mão de certas encomendas como a de Joe Berardo e de muitos outros Joes espalhados pela nossa Região e pelo nosso país.

A nossa homenagem foi aos que trabalham a terra, os que aguentam a casa, os filhos e o futuro, os que saem cedo e regressam tarde e que não conhecem outro caminho que não seja a luta quotidiana, o ordenado contado, a injustiça que, demasiadas vezes, rodeia e abraça uma vida de trabalho.

São estes os esquecidos nas margens, mas que afinal são o centro, pois é deles a força que faz avançar, é deles a vontade que constrói o verdadeiro sentido da terra, é deles o trabalho incansável de construir um futuro particular e comum.

Se um país, uma região uma cidade se fazem dos seus limites legais de território, das suas leis e instituições, da história dos grandes e das promessas de grandeza, faz-se também, e sobretudo, dessa vontade tantas vezes sem nome, dessa verdadeira grandeza de mãos que não descansam, de vidas que não dormem, de sonhos que fazem avançar a multidão anónima e que, nesse anonimato, constroem o território mais real e verdadeiro.

O nosso território comum que é a Europa (e de forma mais lata o Mundo) está, neste momento, a atravessar um período difícil precisamente porque esqueceu, demasiadas vezes, as margens. E nesta definição cabem as margens por excelência: os refugiados, os emigrantes, as minorias, mas também o povo, as pessoas, o homem, a mulher, o jovem, o velho, a criança. Todos eles que esperam do país, da região, do concelho, da localidade, essa pertença, esse reconhecimento, esse olhar que não exclui, que não esquece, que não se ofusca apenas com o que está mais perto, com o que dá mais jeito, com o que é facilmente visível e homenageável.

As cinco pessoas homenageadas este ano por Santa Cruz representam muitas outras que durante a sua vida foram ignoradas pelos agentes políticos, nomeadamente pelos sucessivos governos.

O senhor João Fernandes Calçado, agricultor de 92 anos; a senhora Ovídia Maria Fernandes de Nóbrega, agricultora de 62 anos; a senhora Maria Deolinda, doméstica de 98 anos; a senhora Isabel Gonçalves, doméstica de 81 anos; e o senhor José Luís Correia Baptista, trabalhador da obra de vimes de 70 anos. E, é claro, sem esquecer o senhor José Nunes, canalizador, que presidiu à sessão solene, o que muito me honrou.

Para mim, foi um orgulho poder reconhecer todos eles, reconhecendo neles tantos outros, e reconhecendo neles as minhas próprias origens.