Num pequeno cabeço sobranceiro a uma ribeira em Santana, ficava a escola masculina do serrado, de seu nome oficial, mas todos lhe chamavam escola do cabeço, talvez devido à sua localização.

Entre os muros caídos, em suas ruinas tropeçam pedaços da minha infância.

Calça curta, pés descalços, saco de pano a tiracolo, tinteiro na mão, íamos nós para a escola.

O transporte das duas nunca falhava.

Duas pernas nos levavam, duas pernas nos traziam.

Oito badaladas manualmente dadas no sino da igreja, anunciavam as oito horas da manhã, para alertar que faltava uma hora para o início das aulas, já que na aldeia pouca gente tinha relógio, nem a própria torre da igreja o tinha.

O ovo da galinha, era muitas vezes moeda de troca, para comprar um caderno na venda do senhor Jardim, ou noutra qualquer, porque a falta de material escolar, era punida com umas pesadas reguadas nas mãos.

As condições da escola eram as melhores possíveis, para a época.

“ O ar condicionado” vinha da rua, entrava pela janela lateral cruzava a sala, saía pela janela frontal.

As mesmas janelas, facilitavam a fuga de alguns alunos, quando apareciam as meninas das injeções (enfermeiras que lá iam vacinar).

À beira de um aglomerado de socalcos sobranceiros à ribeira, um cubículo de madeira sem água canalizada, mal cheiroso, a que chamavam retrete, distava da escola a duas dezenas de metros aproximadamente, era o recanto reservado às necessidades fisiológicas.

Era para estes socalcos que fazíamos pontaria, quando atirávamos as palmatórias e as réguas com que a professora nos batia, quando por descuido ficavam ao nosso alcance.

“ O bar” onde se matava a sede, era a bica da água da nascente, que se distanciava a cerca de duzentos metros da escola, junto ao tanque dos peixes do senhor Francisco.

Aí também se tomava água num frasco de vidro para apagar a escrita da pedra (ardósia). Quando acabava a água, uma cuspidela sem a professora ver, também apagava.

Quando havia sete tostões para comprar meio pão preto sem molho, ou um escudo para ser com molho, na venda mais próxima, havia lanche, quando não se conseguia o dinheiro... paciência.

“A piscina” para o banho clandestino, era o tanque de rega do Maquia escavado em terra batida, que ficava a cerca de trezentos metros de distância no meio dos vimeiros, cheio de água castanha, correndo o risco de o dono do tanque chegar e aprisionar a roupa dos banhistas.

Num parque de jogos por nós improvisado, entre os jardins do senhor Francisco, jogava-se ao peão, à barra ou outros jogos, mas quando o senhor Francisco aparecia, o primeiro a vê-lo dava o altera:

-Vem aí o senhor Francisco! E, pernas para que vos quero.

Uma escala de serviço, designava uma brigada de três alunos, que varria a escola após as aulas.

Quando o soalho era lavado, era aumentado o número de elementos da brigada.

Assim era o ensino nos anos cinquenta naquela escola e certamente em outras mais, quando se cantava o hino da Maria da Fonte, debaixo duma disciplina exagerada, onde realmente se aprendia bem, e sem calculadora no bolso, embora algumas coisas fossem desnecessárias, porque “cantar” os afluentes do rio Minho, ou por onde passava a linha férrea da Beira Alta, para uma criança de dez anos, pouca relevância tinha.

Reflexos duma época difícil num após guerra, sem qualquer espírito crítico a esse passado ou a este presente, são épocas diferentes, apenas reduzo este meu testemunho a uma só frase dirigida às novas gerações, que é a seguinte:

Por vezes estamos bem e não sabemos.

José Miguel Alves