
“Vê se não te esqueces de nada! Levas tudo? Tem cuidado...” É algo que os filhos estão fartos de ouvir quando saem de manhã para a escola, quando vão de viagem, etc.
Ora, se por um lado tais “avisos/alertas” podem ser um indicador de preocupação e de querer ajudar, por outro lado, na esmagadora maioria das vezes, são perfeitamente inócuos, pois de pouco ou nada servem em concreto.
A questão é que, mesmo que os avisos sejam pertinentes e específicos, não basta avisar, é necessário que os avisos desencadeiem comportamentos que aumentem as probabilidades de evitar ou resolver aquilo que se pretende.
A título de exemplo: - Todos sabemos que se deve ter uma alimentação equilibrada, o que é mais adequado comer ao pequeno almoço, etc. Mas quantos o fazem? - Existe sinalização rodoviária e todos os alertas que, com piso escorregadio, se deve reduzir a velocidade, que se deve manter uma distância de segurança em relação ao carro da frente, que não se deve utilizar o telemóvel ao volante ou beber se formos conduzir, mas ...; - Existem campanhas de que não são toleráveis quaisquer atos de violência doméstica, violência no namoro, discriminação, etc. mas ....
Sendo que, infelizmente, o que muitas vezes ainda impede que se cometam mais excessos, infrações e crimes ...é única e exclusivamente o medo da penalização (multa, prisão, etc.) e não porque são comportamentos reprováveis que colocam em causa a dignidade e a vida dos próprios e de terceiros. A punição “legal” deveria ser só para “as ovelhas negras”. Para todos nós deveria bastar a autopunição associada à reprovação social e cultural. Mas se dizemos alguma coisa a alguém que deita um papel ou uma beata para o chão ainda corremos o risco de ser agredidos (verbal e fisicamente) ...
Ou seja, a “punição” social e cultural, muitas vezes, demasiadas vezes, ainda é muito residual. Não se trata da defesa de uma “polícia de bons costumes”, que facilmente é alimentada e alimenta extremismos, mas da necessidade de, para além dos necessários avisos/alertas/campanhas..., se desenvolver uma consciência pessoal e social com raízes duradouras.
A outro nível, no âmbito do desporto também proliferam os especialistas em “avisos e alertas”, nalguns casos até ficamos com a sensação que é a única coisa onde são especialistas.
É assim muito comum ouvirmos: “os jogadores estavam avisados para o perigo das bolas paradas...”, “sabíamos que eles eram muito perigosos em ...”, “tínhamos avisado para x, y, z ...”. Ok. Sabiam e estavam avisados, mas será que estavam treinados? Em concreto o que se fez para evitar ou contrariar esses “perigos”?
É que tal como não basta informar, também não basta solicitar comportamentos, é necessário induzir esses comportamentos. Para que isso aconteça, não só as situações utilizadas têm de possuir os princípios ativos adequados, como a posologia deve ser tão personalizada quanto os meios hoje disponíveis o permitam.
Há processos pedagógicos que podem e devem ser privilegiados, mas é um caminho que exige muita paciência, pois já não basta que em Educação os ciclos sejam longos, como por vezes ainda somos confrontados ano após ano com certos comportamentos que nos levam a interrogar se as coisas irão mesmo mudar. A este respeito, um exemplo muito simples, mas que pode ser paradigmático: o que pensar quando ao longo de quase três décadas de docência Universitária todos as férias letivas observamos as funcionárias da limpeza a retirar em cada sala de aula centenas de pastilhas elásticas que estão coladas debaixo da mesas e cadeiras ...? Não nos podemos esquecer que ali se sentam futuros pais, professores, técnicos e quadros superiores...
Somos um país de especialistas em avisos e alertas, até já tivemos um Presidente da República que fazia gala disso, mas será que cada um de nós não pode ajudar a passar para o nível seguinte ...? Se não o fizermos, depois não nos podemos queixar e lamentar com o habitual “eu bem avisei”.