
Frequentemente, um cheiro, um som, um sabor, transporta-nos para épocas e lugares esquecidos cuja lembrança se encontra adormecida.
Todos nós guardamos, na memória dos nossos sentido, cheiros e sabores, sons e sensações que nos constituem e são parte integrante e importante de quem somos. Épocas festivas, estações do ano, lugares, gentes, situações vividas são, as mais das vezes, identificadas por nós por associação ao que despertaram em um ou mais dos nossos sentidos. Mais, ainda, do que por sentimentos ou por palavras.
Uma das épocas em que tal acontece com mais frequência é a que atravessamos, o Natal. E isso é verdadeiro para crentes e não crentes, jovens e idosos. Pelo menos nas culturas que celebram o Natal. Com muita acuidade na Madeira onde as Festas são, por excelência, a época das celebrações religiosas e profanas, de cariz social e familiar, onde tudo isso tem uma importância acrescida.
A carne de vinha-d’alhos, o “pão molhado”, as broas de mel, de limão, de canela, o sarapatel, o bolo de mel (sempre “o melhor do mundo” para cada família), os licores, as cebolas de escabeche, os picles com mostarda e caril, o cacau quente a escaldar, a canja e as sandes de galinha, património cultural imaterial no que à gastronomia madeirense diz respeito, que se teima em transmitir de geração em geração.
A azáfama das “limpezas de Natal” com os ruídos e cheiros associados: o tinir de vidros e louça que, estando mais reservada, é cuidadosamente lavada e guardada, o cheiro a cera fresca nas casas de quem teima em fazer brilhar as tábuas do soalho, como a mãe e a avó costumavam fazer.
O cheiro a viochene com que ainda há quem pinte o papel pardo para “moldar” a lapinha. O odor pungente do verniz. A fragância silvestre dos pinheiros de Natal, de quem resiste a utilizar os de plástico. A olência da cera queimada das velas espalhadas pela casa. Até o ruido do rasgar do papel que embala as prendas, às mãos dos mais jovens e impacientes por descobrirem o que tiveram de presente, o que lhes trouxe o Pai Natal.
O ribombar das bombas-de-garrafa e o estrepitar dos “diabinhos” já muito pouco ouvidos, mas que ainda ressoam, cá dentro, desde a infância.
Os sons do rajão, do machete, da viola, do pandeiro, das castanholas, da gaita-de-beiços, o arrastar dos pés e o bulício de quem madrugou para ir à missa do parto e sente uma tentação enorme de acordar os preguiçosos que continuam a gozar o calor da cama.
Apesar da alucinante evolução dos tempos, ainda há sensações e gostos que vale a pena lembrar, preservar e transmitir às novas gerações. As memórias são a identidade dos povos.
Boas festas!