Temos assistido ultimamente às peripécias pouco abonatórias da democracia parlamentar britânica, ainda considerada por muitos como exemplar.
Mas, para mim, nada exemplar é, desde logo, o seu sistema eleitoral que considero uma ditadura de maiorias totalitárias, ou seja, é a imposição de cada maioria uninominal, mesmo que relativa, multiplicada por 650, deitando no lixo, em cada círculo, os votos de um grosso de eleitores (podendo até ser superior a 60%) numa escolha inútil noutros 2 ou mais partidos.
Assim, os Conservadores com 43,6% dos votos somam 365 mandatos (56,2%), os Trabalhistas com 32,2% têm 203 mandatos (31,2%), e aos Liberais com 11,6% restam 11 mandatos (1,7%). De igual modo, o Partido Nacionalista Escocês (SNP) com 45% de votos na Escócia obtém 48 em 59 mandatos (81,4%).
É, pois, fora deste contexto que se poderá afirmar que, sendo o ‘Brexit’ o tema quase único destas eleições, quase um referendo, este teve uma vitória indiscutível. Mas tal afirmação é falsa.
Na verdade, os eleitores que queriam já o Brexit, por opção ou por cansaço, só podiam votar nos Conservadores, Brexit Party, UKIP ou em partidos unionistas da Irlanda, que juntos tiveram apenas 46,8% dos votos mas 373 mandatos (57,4%).
Pelo contrário, os Trabalhistas, os Liberais e os vários partidos nacionalistas da Escócia, Irlanda ou Gales representavam o ‘Remain’ ou o não ‘Brexit’ já, os quais, juntos, tiveram 52,4% dos votos mas apenas 277 mandatos (42,6%).
De um outro ponto de vista, esta vitória não globalmente consentida do Brexit será uma bomba relógio na desagregação deste Reino (ainda) Unido.
Na Escócia, o referendo de 2014 negou a independência por 55% temendo a consequente saída da EU. Agora, o referendo daria para reganhar a EU. Além disso, a evolução eleitoral tem sido favorável ao SNP (independentista) que de 2017 para 2019 passou de 36,9% para 45% (de 35 para 48 mandatos em 59), enquanto os Conservadores inverteram de 28,6% para 25,1% (de 13 para 6 mandatos).
Também na Irlanda, em 2017, pela primeira vez na Assembleia Irlandesa os partidos unionistas ficaram abaixo dos 50%. Nestas eleições gerais caíram de 11 para 8 em 18 mandatos, cedendo 3 lugares para pro-europeus, 2 dos quais nacionalistas. Acresce que, não sendo imposta uma fronteira terrestre mas sim marítima, a Irlanda do Norte deslizará naturalmente para a República da Irlanda.
Assim, este Brexit fará outro ‘breaxit’ (breaks it).
Óscar Teixeira