Em 2015, em França, António Costa é recebido pelo presidente francês numa audiência em que se abordou o projeto para a divulgação e ensino do português em França. Para isso, eram necessários professores formados em línguas e literaturas, modernas ou clássicas. O País precisava de professores para este projeto. Felizmente, tínhamos esses quadros, constatava o Primeiro-Ministro, era não só um desafio aliciante, como, reconheceu AC, a questão da demografia tinha criado um número disponível de professores para o efeito.
Já Pedro Passos Coelho tinha sugerido que os professores de português fossem dar aulas para os PALOPS, sem partir de nenhuma projeto enquadrável. Os que nunca se haviam incomodado com as palavras de Passos Coelho, logo viram na intervenção de Costa uma atitude igual porque implicava professores e de português. Para quem isola afirmações descontextualizadas para lhes conferir, a partir do seu sentido literal, o significado que convém, sem o contexto, que lhes confere a semântica, isso seria o suficiente para equivaler as declarações de ambos os primeiros-ministros e as políticas dos seus governos. Acontece que, logo no ponto de partida há uma diferença. Enquanto AC apresentava um projeto, e convidava os professores a integrá-lo, com as condições de trabalho asseguradas pelo Estado português, o que PPC dizia aos professores era desenrasquem-se, estão a mais. Estão a mais por diversos motivos: porque o governo da Direita beneficiou os (pseudo)colégios privados em detrimento da Escola Pública; estão a mais porque integram o setor público, a crise era, palavras de Paulo Portas, do Estado e não do País, como se professores, médicos, enfermeiros, polícias, juízes, militares, administração pública não estivessem ao serviço do País; estão a mais porque na educação, na saúde e nas pensões preferimos a escola privada, a saúde privada, as pensões privadas; por isso, o seu Governo cortou, por questões ideológicas, os salários da função pública. Este é o primeiro aspeto do contexto, depois há anteriores afirmações que integram a frase de PPC. “Só vamos sair da crise empobrecendo” e emigrando, exportando, tal como Salazar, os portugueses que sobrassem. Pobreza, Emigração, a África como destino, num quadro cultural salazarista perfeito.
O contexto cultural no governo de AC difere frontalmente: aumento de pensões e não insulto aos mais velhos, com a afirmação de que são “a peste grisalha”; incentivos aos mais jovens, e não, outro apelo à emigração, “não sejam piegas”, “saiam da sua zona de conforto” e a zona de conforto é Portugal - não os queremos cá, isto é para gente inovadora, selecionada socialmente, tal como a seleção darwinista das espécies: qual contrato social qual treta, qual consenso constitucional, qual Estado Social, qual Tribunal Constitucional (TC), quais instituições, e o apoiante-mór destas políticas em Bruxelas, o inefável Barroso, vociferava contra a suprema corte, o TC, garante do Estado de Direito, com o silêncio de Cavaco, Passos e Portas. As palavras de Costa integram-se num projeto de expansão do Português; as de Passos Coelho de expansão da miséria e de expulsão do português.
Miguel Fonseca