Quando a pesada porta fechou atrás de nós, não pude deixar de sentir um calafrio na espinha. Acabávamos de entrar numa outra realidade, onde a palavra liberdade não parece fazer sentido. Mas se assim era, o que iria eu dizer àqueles reclusos, logo eu que apregoo aos quatro ventos que tenho uma paixão por um desporto onde me sinto realmente livre!?

Mas depois lembrei-me!

Há muitos anos atrás, li um livro cujo título era “O Homem em Busca de um Sentido”, de Viktor Frankl, que descrevia a sua terrível experiência em Auschwitz. A leitura desse livro afectou-me marcadamente na altura, obrigando-me de certa forma a mergulhar mais profundamente na dicotomia sucesso/insucesso no desporto de alto rendimento, faces da mesma moeda.

Uma das pessoas presentes naquela sessão organizada pelo Programa Nacional da Ética no Desporto, em parceria com a Direção Regional de Juventude e Desporto no Estabelecimento Prisional do Funchal, lembrava-se do dia em que chegara ao aeroporto da Madeira, depois de me sagrar Campeão do Mundo. Estávamos no ano de 1995 e ele tinha 12 anos.

Naquela noite, uma multidão dirigiu-se ao aeroporto. Fomos recebidos pelo então Presidente do Governo Regional, tivemos direito a banda de música, discursos, flores e milhares de beijos e abraços. A festa prolongou-se noite dentro, depois de um cortejo de carros e autocarros que nos levaram até à Marina do Funchal.

Uns meses depois, aterrei no mesmo aeroporto, à mesma hora, vindo de um outro Campeonato do Mundo. Mas desta feita, terminara em 18º. E, ainda com as imagens, sons, flashes do que se passara três meses antes muito presentes, deparei-me com apenas duas pessoas à minha espera: os meus pais.

Com estes dois episódios, tão perto um do outro, apercebi-me do efémero que é o sucesso e de como precisaria de reencontrar o propósito, significado, sentido para a minha carreira desportiva, se queria continuar àquele nível. A resposta veio na equanimidade que, dia após dia, aprendi a desenvolver face a tudo o que a vida nos proporciona.

Nietzsche escreveu outrora: “Aquele que tem uma razão para viver pode suportar quase tudo”. Para aqueles homens e mulheres, confinados àqueles muros, a liberdade reside na escolha de como reagir à realidade...