Nós não temos... Nós não temos o Guggenheim de Bilbao que após a sua abertura, foi um fator de crescimento do turismo na referida cidade, mas temos a Fábrica das Águas que seria um excelente local para um museu, pela sua história e que podia albergar 600 anos da memória comum. Nós não temos a Ópera de Sidney que é um dos símbolos da Austrália, mas temos as casas de salão que na sua simplicidade garantiram uma identidade própria e um saber transmitido de geração em geração. Nós não temos o Stonehenge que será o monumento megalítico mais conhecido no mundo, mas temos os muros de pedra montada, que noutras paragens são património da humanidade e que aqui perpetuam o engenho de quem vive com pouco e persiste numa atividade agrícola que sempre foi incerta, face á constante falta de água. Nós não temos as pirâmides de Quéops, símbolo do Egito e da riqueza dos grandes faraós, mas temos os fornos da cal que foram sinónimo de criação de riqueza, numa altura em que não havia turismo. Nós não temos o Alqueva e o maior lago artificial da Península ibérica, mas temos a represa do Tanque que durante muitos anos foi sinónimo de vida e agora ninguém sabe o que fazer com ela. Nós não temos Petra, a Cidade Rosa da Jordânia, esculpida na Pedra, mas temos a Fonte de Areia com as cornucópias criadas pelo vento e que tarda em sair da letargia a que foi votada. Nós não temos Tulum e o misticismo dos Maias, mas temos o cais das Salinas que é uma tatuagem no imenso areal e que, segundo os entendidos, para além da relevância história é importante para a defesa da praia. Nós não temos a Torre Eiffel, que supostamente seria uma instalação provisória e que se tornou num símbolo de Paris, mas temos as noras que foram um enorme suporte de vida, numa terra em que a água é mais do que petróleo e mais do que ouro. Nós não temos os famosos panamás, estou a falar dos chapéus e não dos “papers”, mas temos os chapéus de palmito que poderiam muito bem ser peças de artesanato distintivas da ilha. Nós não temos o mítico Estádio de Wembley, mas temos o Estádio Comendador José Lino Pestana que tanto fez pelo desporto na ilha e agora está num estado lastimável. Em comum, todo este património tem o facto de ter caído no esquecimento e, que eu saiba, não há nenhum plano para reabilita-lo. Nós não temos e não somos uma ilha rica, mas o que mais me embaraça é a pobreza de espírito. Aquilo que nos foi deixado, por aqueles que nos antecederam, deveríamos deixar em dobro para as gerações futuras. Celebrar a Autonomia política e administrativa é poder escolher aquilo que entendemos que defende os nossos interesses, os nossos valores e a nossa identidade. Agora, se estamos à espera quem venha alguém, de além-mar, ditar o que relevante ou irrelevante, é um estilo e é um registo que não nos defende. Faltam 99 para os 600 anos, mas à velocidade a que coisas acontecem parece que nem daqui a 99 anos, todo este património será recuperado. A 2 de novembro de 2018, no rescaldo das comemorações, deveríamos estar a deixar tudo, em melhores condições do que aquelas em que as encontrámos, mas acho que isso não acontecerá, embora eu continue a manter a minha esperança. Estamos na altura certa, no ano certo e no momento exato para começar esse trabalho. Visto do ILHÉU de FORA é assim, à porta da Fábrica das Águas será outra coisa.

Nélson Caldeira