
Já quase todos haviam regressado ao hotel. Faltavam apenas as duas miúdas. Tinha-lhes calhado a sorte de irem para o mar, precisamente na altura de maior produção daquela incrível fábrica de vento, que todos os dias nos fascinava. Sentei-me de pernas cruzadas na bancada da promenade, virado para o mar e com a ventania quase de frente. E ali fiquei. Há quanto tempo não tinha aquela disponibilidade, para nada fazer, a não ser esperar?
De vez em quando fechava os olhos. Os outros sentidos ficavam mais vivos. Sentia o vento percorrer cada milímetro da pele do rosto, do pescoço, do tronco e das pernas. Os cabelos abandonavam-se à sua força. A maresia entrava-me pelas narinas, temperando o vazio do pensamento. Pelos ouvidos, entravam sons familiares. E depois rodava a cabeça, só um pouco, até sentir o vento exactamente de frente. E aí conseguia sentir as suas variações, os seus humores, como se estivesse a falar comigo na sua linguagem tão particular.
Quando abria os olhos, a visão era paradisíaca. No horizonte, ainda conseguia ver as pequenas embarcações onde as miúdas velejavam. Pequenas velas brancas, que quase se confundiam com os milhares de pontos brancos que o vento teimava em criar naquele imenso mar da baía de Corpus Christi. Mais perto, podia ver cada onda desenvolver-se graciosamente, numa perfeita comunhão. Até desfazerem-se suavemente na praia de areia, quase aos meus pés.
E então aconteceu. Transportei-me para dentro de água e também eu velejava ali, aproveitando cada onda, deslizando no mar, saboreando aquele momento único. Foi a primeira vez na vida que visualizei-me no mar sem um propósito pré-definido, mas apenas e tão só pelo prazer de o poder fazer. Dei comigo a voar sobre o mar, contra o vento e a favor, puro deleite, nenhum compromisso. Tantos anos a fazê-lo numa perspectiva de treino mental e, agora, percebia que podia usar aquela técnica para aquelas ocasiões, em que não tinha como me juntar fisicamente a todos aqueles jovens, que se divertiam no mar. Como se estivesse com eles!
Um dos miúdos tirou-me daquele estado. Viera esperar a irmã. Mas continuamos ali sentados, até as vermos regressar. Sem sequer precisarmos falar, fomos até à beira mar e, entrando mar dentro, mergulhamos nas águas quentes e agitadas. Vinham cansadas mas alegres. Com um sorriso contagiante. De quem havia superado o desafio e tinha adorado velejar naquelas condições. Sim, eu compreendia-as. Afinal, também tinha lá estado, “velejando” com elas!