Começo esta missiva por afirmar que a leitora que redigiu a carta em epígrafe deveria ter assinado “leitora ressabiada” - expressão mais verdadeira e adequada ao teor da mesma!

A sua escrita é uma “exsudação” de ódio, de ressabiamento às educadoras em geral e à ed. Margarida Fazendeiro, em particular. Revela um total desconhecimento pela carreira das profissionais que são as primeiras pedagogas dos nossos filhos!

Essas profissionais são as primeiras a zelar pelo bem-estar, pela segurança e pela educação das crianças. A sua formação é difícil, requer muito estudo, estágios, muita dedicação e aperfeiçoamento constante das metodologias que aplicam! Requer uma avaliação constante e contínua, quer das crianças que têm a seu cargo para conseguirem atingir o desenvolvimento integral das mesmas, quer de si próprias, pois são sujeitas anualmente a um processo de avaliação que está estipulado no Estatuto da Carreira Docente. É um trabalho que deveria ser muito mais valorizado, pois elas são verdadeiras psicólogas, verdadeiras terapeutas da fala, verdadeiras enfermeiras, verdadeiras professoras, enfim são como mães profissionalizadas.

Passemos ao ataque à educadora Margarida. Como é que a senhora tem o descaramento de falar assim de uma pessoa que tem contribuído imenso para a qualidade do sistema de ensino na RAM?! Atualmente, cumpre o seu serviço numa escola, como as restantes colegas, não tem nenhum “tacho”. Tem que se atualizar, minha senhora! A ed. Margarida já saiu do Sindicato dos Professores da Madeira e fique sabendo que faz imensa falta, porque é uma lutadora exímia, não só pelas causas das educadoras, mas pela educação no seu todo e pela ESCOLA PÚBLICA! Sempre teve uma postura democrática, um grande grau de abertura, capacidade negocial e de diálogo, espírito de equipa e de interajuda... A escola pública na RAM ficou a perder, acredite naquilo que digo, pois sou professora há 30 anos.

Passemos agora a outra questão: que culpa têm as educadoras da fraca natalidade? É um perfeito disparate! Esta situação é influenciada por imensos fatores, sendo o principal a política governativa.

No que concerne às férias, as crianças só podem frequentar a escola durante 11 meses! Por outro lado, as educadoras não podem gozar os 22 dias de férias quando querem, qualquer funcionário público o pode fazer, exceto os docentes! A legislação OBRIGA-OS a gozar férias no período compreendido entre 16 de julho e 1 de setembro. Muitos até preferiam tirar férias noutras alturas, até porque as viagens e estadias são muito mais baratas!

Outro aspeto mencionado: luta por materiais. Já foi realizado um estudo e está demonstrado que a grande maioria dos docentes gasta uma parte do seu vencimento em material para usar com as crianças, quer sejam computadores que não existem em número suficiente, folhas, câmaras fotográficas, pens, livros, jogos enfim são tantos materiais que para não ser exaustiva, não elencarei...

Debrucemo-nos sobre o trabalho que as educadoras fazem quando terminam as atividades com as crianças, em julho: são elas que planificam o que as ajudantes farão! São elas que avaliam cada criança que têm a seu cargo, todas diferentes entre si. Pensa que é em poucos minutos que se consegue avaliar eficazmente o desenvolvimento integral de uma criança? É necessário refletir muito bem, apoiar-se nos registos diários que fazem, consultar os trabalhos dos alunos, preencher grelhas, etc.

Têm que elaborar relatórios da sua atividade, relatórios de crianças com necessidades educativas especiais, avaliar planos aplicados, participar em reuniões com técnicos da educação especial, com encarregados de educação, com outros docentes, com a direção da escola, realizar inscrições de crianças, realizar e entregar contabilidade, fazer inventários, fazer formação porque a legislação vigente a isso obriga e algumas até avaliam colegas porque são avaliadoras internas! Uma semana chega para isto tudo?! Por último: se acha as educadoras são privilegiadas, tire o curso e seja! Nunca é tarde para curar frustrações!

Margarida Vasconcelos