Uma semana após a greve de médicos realizada entre os dias 8 e 10 de Maio e ainda numa fase de “rescaldo”, a Delegação Regional da APMGF (Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar) da Madeira agradece, antes de mais, toda a compreensão dos utentes madeirenses pelos incómodos causados nestes dias. Estes três dias constituíram um momento de união, determinação e de combate das posições dos médicos e da prestação de cuidados no SNS (Serviço Nacional de Saúde). A adesão foi satisfatória e demonstrou o descontentamento dos médicos face ao bloqueio sucessivo das negociações com os sindicatos. É só estar atento às notícias diárias conhecidas de todos. Temos de dizer basta! As condições de trabalho e o desinvestimento nos Cuidados de Saúde Primários e no SNS preocupam-nos e motivou a APMGF a apoiar e expressar a sua solidariedade com esta greve.
Entre as razões alegadas pelas duas estruturas sindicais para a convocação da greve, a APMGF faz destaque para o redimensionamento progressivo das listas de utentes dos médicos de família (que deve ser revisto com base numa nova métrica que considere a realidade sócio-demográfica do local de exercício), a degradação das condições de trabalho e de segurança dos médicos e especialmente dos médicos internos, os atrasos dos concursos para colocação de médicos, a promoção da indiferenciação médica, a descaracterização das carreiras médicas e a necessidade de descongelar as grelhas salariais.
Um dos argumentos do Ministério da Saúde é que não há verba suficiente para a implementação das medidas propostas pelos sindicatos. Contudo, são gastos milhões de euros com serviços de empresas de trabalho médico temporário, em vez de abrir concursos atempados para a contratação dos médicos especialistas necessários para o SNS. Por isso defendemos a abertura de concursos para a contratação de mais médicos, e contribuir para a redução do número de utentes sem Médico de Família. Os médicos sentem-se revoltados por nem sempre conseguirem dar a resposta adequada e desejada às necessidades das pessoas, preservar a dignidade do ato médico e a segurança clínica, dado existirem falhas graves nas condições de trabalho. A falta de capital humano, a ausência de estruturas físicas minimamente adequadas ao exercício da profissão, a existência de equipamentos sem a devida manutenção, a falta de dispositivos médicos e de materiais clínicos adequados são algumas das falhas apontadas. Iniciar imediatamente a implementação da definição do limite máximo da lista de utentes, possibilita um efetivo acesso dos utentes ao seu Médico de Família. Queremos a diminuição da lista de utentes por Médico de Família, para que cada cidadão tenha um tempo digno de consulta e se diminua o tempo de espera para consultas.
Só com mais médicos qualificados é possível formar médicos mais novos e para termos mais médicos qualificados nos serviços, é preciso descongelar as carreiras. Os médicos sem formação são médicos indiferenciados e sem especialidade médica, o que compromete a qualidade do SNS. Estes médicos mais novos precisam de ter acesso a vagas no internato médico, para não os deixar sem formação. Daí a imperativa necessidade em iniciar a revisão da carreira médica e das grelhas salariais. Desta forma evita-se a migração de médicos para o setor privado e para o estrangeiro.
A greve dos médicos é pela melhoria das nossas condições de trabalho, que permitem o mais importante: serviços de qualidade, dignos e responsáveis, em que os utentes sejam bem atendidos e tratados. Esperemos continuar a contar com o apoio e solidariedade dos utentes na defesa do Serviço Nacional de Saúde.
A APMGF, tal como sempre o tem demonstrado, continua disponível para trabalhar com o Ministério da Saúde, com as organizações médicas e com todos os médicos para o fortalecimento do Serviço Nacional de Saúde, com o objetivo último de encontrar soluções que possam ajudar a desenvolver os Cuidados de Saúde Primários em Portugal, dignificar a Medicina Geral e Familiar e melhorar os cuidados prestados à população.
Delegação Regional da Madeira da APMGF