Há quem considere que a corrupção e todos os malefícios dela decorrentes são exclusivo da classe política, como se os nossos políticos não fossem o espelho da nossa sociedade com os seus defeitos e as suas qualidades. Atirar para a classe política a exclusividade dos atos corruptos é esconder a cabeça na areia e ignorar a realidade. Quando se fala de corrupção pensa-se logo em subornos por dinheiro, interesses empresariais e políticos, empregos, cargos em empresas privadas e públicas e cargos políticos. Mas e os tão comuns jeitinhos, fruto de relações familiares, amizades, interesses comuns e outras relações de caráter pessoal e até clubístico? Não são também corrupção? Tenho para mim que são faces da mesma moeda e que a predisposição para a chamada pequena corrupção é que leva à grande corrupção. Não é uma questão de ADN mas de mentalidade permissiva, de esperteza saloia, de falta de caráter, de mau exemplo dos pais, muitas vezes os primeiros a ensinar aos filhos qual o caminho mais fácil a seguir para atingir os seus fins sem olhar a meios. Quando vamos a um serviço público seja uma Repartição ou um Hospital e conseguimos um jeitinho para passar à frente dos outros utentes que estão há vária horas, dias, meses, anos, aguardando a sua vez, ou alguém lá dentro mediante um simples telefonema nosso ou de alguém com influência resolve o nosso assunto sem que tenhamos de seguir as vias normais e esperar pela nossa vez, mesmo que isso não envolva dinheiro ou qualquer valor, também é corrupção. É esta nossa predisposição para ultrapassar os outros e conseguir os nossos objetivos sem aguardarmos pela nossa vez cumprindo os preceitos socialmente estabelecidos, que contribui para sermos corruptos, inicialmente em pequena escala, escala essa que vai sempre aumentando consoante os interesses em jogo. Acusem e denunciem os políticos corruptos, mas lembrem-se que eles espelham a sociedade que somos. Vencer a corrupção impõe alterar mentalidades, tarefa muito difícil!
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